os moliceiros têm vela (176)


um dia eu também

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o “doroteia verónica” era assim

regressarei sempre
ao corpo
ao meu corpo ainda

esta coisa onde me
penduro
estendal de saberes

palavras sentires
por haver já
não muito para

uma folha caiu
levantou voo
ligeira uma ave

um dia eu também

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um moliceiro é assim

(torreira; regata do s. paio; 2010)

o bota-abaixo do “marco silva”


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os filhos do arrais marco silva, sérgio e ricardo

no dia 20 de junho de 2015, foi deitado à ria o moliceiro “Marco Silva”.

começado a construir em março pelo arrais marco silva e pelo mestre firmino tavares, com a ajuda dos filhos e amigos, o arrais marco silva voltava a ter um moliceiro.

depois da venda, há uns anos, do “Ricardo e Sérgio”, por não ter condições para a sua manutenção, o arrais voltava à ria com barco novo.

sem quaisquer apoios institucionais, como é costume em nome do défice, mas com muita “paixão” e solidariedade de todos, conseguiu.

deste momento importante da vida de ambos, homens e barco, não consegui registar o instante mais significativo do bota-abaixo: o baptismo e o deslizar pela rampa, tal era a aglomeração de gentes e repórteres e…. não menos importante, os meus parcos 1,65 metros de altura.

o bota-abaixo foi feito na marina de recreio da torreira, propriedade da associação naval da torreira, e o barco deslizou tão bem e reconheceu tão depressa a ria, que o arrais marco teve de nadar para ir ter com ele e assumir o lugar que lhe competia.

depois, o “Marco Silva” levou a bordo a companha de xávega do arrais marco, que esteve presente em todos os momentos do bota-abaixo, e alguns amigos.

de realçar o papel dos filhos sérgio e ricardo em todos os momentos da construção, aproveitando férias e fins de semana. se os barcos do arrais marco silva, têm os nomes dos seus familiares, verdade seja dita que sempre os tem a seu lado quando é preciso.

aqui fica o testemunho da realização de um sonho, do regresso do mestre firmino tavares à arte de construção naval, da força de uma família e da unidade de uma companha.

é esta a ria das solidariedades e dos HOMENS

 

os moliceiros têm vela (173)


UM BOM ANO DE 2016

sobreviver

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o moliceiro “dos netos” do ti abílio carteirista

de velas pandas os dias
seguiram o seu caminho
barcos ante nossos olhos

espanto de ainda por cá
resistir teimoso à chamada
espantoso o ser ainda

um moliceiro voga na ria
quero deixar-vos um ror deles
a encher-vos os olhos

nada mais vos peço que
sonheis com muita força
só assim os moliceiros hão-de

sobreviver

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a bandeira da pátria dos moliceiros

(murtosa; regata do bico; 2007)

 

o meu amigo rui


ao pescador da torreira

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reparar as redes da solheira

far-te-ás no tempo
desfazendo o que de ti
fizeram
afirmar-te-ás negando
que todo o fim
é negação de início

seres tu é tarefa
em que não podes estar só
a companhia surgirá quando
de velhas companhias livre fores

és mestre do incerto
senhor do saber esperar
por isso te digo

não
não tens o que mereces
nem ninguém te oferecerá
o teu futuro

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as horas que fazem o dia são poucas

(torreira, porto de abrigo dos pescadores)

postais da ria (121)


umbiguices

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a espera, o espelho, calma ria, calmaria

tenho do umbigo a noção
exacta da sua função
foi por ele que me alimentei
no ventre de minha mãe
nada mais

agora aí está melhor ou pior
desenhado na barriga
sem quaisquer funções
não perco por isso tempo
em contemplá-lo

a olhar para o umbigo
muito boa gente anda
no dizer afiado e simples
da sabedoria popular

sentam-se na sua vidinha
sabem todos os nomes
que abrem portas e janelas
não incomodam para
não serem incomodados

como eu os entendo
umbigo só há um
e agora a mãe é outra

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toda a beleza é pouca aqui

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio, 2012)