
o arrais marco mostra como é velejar um moliceiro
a arte de velejar um moliceiro

um barco lindo que teve de ser vendido e que anda pelos canais de aveiro mutilado e maltratado
(murtosa; regata do bico; 2007)

o arrais marco mostra como é velejar um moliceiro
a arte de velejar um moliceiro

um barco lindo que teve de ser vendido e que anda pelos canais de aveiro mutilado e maltratado
(murtosa; regata do bico; 2007)
márcia evaristo (arrais da ria)

tem carta de arrais e é camarada do tio quim nas artes da ria.
neste registo está a safar as redes, enquanto no rosto exibe ainda a maquilhagem que os chocos deixam nos rostos de quem os apanha.
são assim as pescadoras da ria

(ria de aveiro; torreira; 2011)
retrato com moliceiro em fundo

calam-se
existem não são
estão mas
sorriem muito
a todos
amanhã
serão lembrados
no registo
não na memória
dos seus
piquenos que são

(torreira; regata da ria; 2010)
não merecem

a alar a solheira
fizeram-se homens
ainda crianças
na escola dos barcos
fazem de cabeça
as contas
das malhas das redes
nunca têm nos bolsos
quanto baste
para poderem dizer
vou de férias
partem para longe
vão de viagem
em busca do pão
que a ria nega
o comprador não dá
sei deles o suficiente
para vos dizer
não merecem

não ser de oiro a pescaria
(torreira)
o meu amigo carlos padeiro

começa-se cedo aqui
aulas acabadas
abertas portas e janelas
a ria de novo
aqui onde
de água o chão
e infinito o tecto
os tempos são
de marés e sol
os olhos prendem-se
nas redes
onde peixe mais tarde
não é este o lugar
da palavra
por isso do carlos
escuto o silêncio

férias da escola é na ria
(torrreira; porto de abrigo; 2010)
o caminho é em frente

aproveitar o vento
saber onde o laço
o nó
as mãos dadas mais
lembrar o ontem
na escolha de hoje
limpar a courela de ervas
semear
tempo de fazer a rede
confiar no fio
na arte dos dedos ágeis
dar as mãos pelo futuro
saber escolher
amanhã não me posso
arrepender
crescemos porque damos
não porque recebemos
sopram ventos de mudança
partamos com eles
o caminho é em frente
sempre foi

é esta a nossa gente
(murtosa; regata do bico; 2006)

cipriano brandão (gamelas)
o meu amigo cipriano

homem do mar e da ria, uma voz a ouvir
(torreira; porto de abrigo)
espero um dia novo

há-de ir à vara
espero um dia novo
a cada dia
nada mais peço que
novo seja
de memória o sonho

o homem e o barco
(murtosa; regata do bico; 2010)
cheio só de mim

um a um os “andares” vão entrando na bateira
braço a braço
os dias
por entre os dedos
foram
olhos por dentro
dos olhos
estas memórias
queria a rede cheia
que de sonhos fora
para um dia te legar
mas nem isso
vou-me como vim
nu de tudo
cheio só de mim

nem sempre a rede salva o salvador, é assim a vida de pescador
(torreira; alar da solheira; 2010)
homens da ria

eles podem ser o futuro, assim os deixem e apoiem
há moliceiros na ria
porque de paixão
estes rostos cheios
retesados corpos
na ânsia da vela
mais alto o mastro
voga o sonho
dentro deles
num amanhã
onde não estarei
serão eles os mestres
senhores dos ventos
homens da ria

zé pedro miranda, joão magina e rui rodrigues (russo)
(murtosa; regata do bico; 2014)