crónicas da xávega (163)


hoje sou memória

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o M. Fátima

pesam em mim gerações
que desconheço

enterrados na memória
comum de um povo
os meus maiores

entre mim e eles o ser eu
a continuação
existo por que existiram
isso lhes devo

quisera soubessem que
os lembro
porque continuam em mim

hoje sou memória

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na areia um barco só pode morrer ou descansar

(praia da torreira; 2013)

os moliceiros têm vela (213)


hoje quero ser vela

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a ilusão é estarem juntos
porque deviam

a realidade é a ilusão
ser só isso

contenta-te com o que vês
e sê feliz

se as velas fossem asas
haveria quem as quisesse
roubar

mas são apenas asas
não servem para voar

hoje quero ser vela

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(torreira; regata da ria: 2010)

crónicas da xávega (162)


quero ser barco

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estátua nome de rua
jardim praça medalha
não as quero
sequer as mereço

nada fica
de quem a tudo se deu

se me disserem de pedra
acreditem
tudo o que de mim digam
é verdade ou foi

estou cansado velho
gasto desconjuntado

no tempo que me falta
quero ser barco

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(torreira; coampanha do marco; 2014)

os moliceiros têm vela (212)


espero

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espero
as palavras sensatas
a resposta
cordata e pensada
reconhecidos
o erro a falta

espero
a justa paga porque
prometida
e como tal devida
a quem por ela fez
mais do que
quem dela sem saber fala

espero
mais que tudo
e como sempre
que os homens sejam
a palavra dada
convertida
no pagamento devido
só isso

sou as águas calmas
da ria
mas também as vagas
quase de mar
quando do norte
o vento forte
em rajadas

espero
mas não muito

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(torreira; regata do s. paio; 2012)

crónicas da xávega (161)


o arribar

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depois de presos os ganchos nos arganéis da proa – arribar de proa – é preciso correr para fugir ao perigo, não só porque pode haver um movimento lateral do barco, mas também porque o tractor começa de imediato a puxá-lo para terra.

é um momento perigoso para todos.

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(torreira; companha do marco; 2013)