os moliceiros têm vela (202)


a vida antes da morte

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não me preocupa o que acontece depois de morrermos, preocupa-me sim o como morremos.

no momento em que em portugal se vai discutir a legalização da eutanásia, tudo o que com ela se relacione, nos países onde já é legal, é notícia. infelizmente nem tudo, só aquilo que interessa a quem dominando os meios de comunicação se opõe à sua legalização.

não haverá muitos dias, numa estação de rádio, foi transmitida uma entrevista com uma enfermeira portuguesa a trabalhar na bélgica, que tinha participado numa morte assistida.

a moça estava chocada, disse que se recusava a participar em qualquer outro acto semelhante. relatou que a pessoa em causa, uma mulher, estava lúcida, era saudável, mas “sentia-se só e queria morrer”.

nem a filha a demoveu, e no momento do desenlace despediram-se uma da outra com um

“amo-te”

ora tudo isto aconteceu num “lar de idosos” onde a enfermeira trabalhava, disse.

nunca a ouvi questionar o funcionamento do lar. porque é que num lar uma pessoa se pode sentir só?

se é assim na bélgica, como será em portugal?

assustam-me os lares de idosos, como me assusta o sofrimento que só adia a morte.

preocupa-me que uma pessoa saudável, se sinta só num lar e peça para morrer.

preocupa-me esta sociedade egoísta e cínica que não vê que a maioria dos “lares de idosos” são a prática “piedosa” da eutanásia.

preocupa-me

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(torreira; regata do s. paio; 2012)

crónicas da xávega (151)


meditação breve

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a fotografia aos fotógrafos
a poesia aos poetas
nada mais vos quero deixar
que a memória das gentes
as palavras do que sinto
sou ou tento ser

tenho a noção
do quão pouco valho
mas não seja por isso
que nada faça

como esta gente que espera
os que ao mar se hão-de fazer
também eu dou o que tenho
sabendo que mesmo pouco
falta fará que seja feito

leio vejo escuto
com nada fico
se tenho dou reparto
migalhas sejam
como estas

pão à mesa de quem
não tem voz

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(torreira; companha do marco; 2009)

cheguem os que ao mar vão, que tudo está pronto para a partida e a voz de mando do arrais

os moliceiros têm vela (200)


aos senhores da terra

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toda a beleza dos moliceiros

queria acreditar em vós
em tudo o dizeis

ouço-vos atento

mas de que serve ouvir-vos
se fazeis o oposto

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o que é tem a ver o moliceiro com o logotipo da câmara da murtosa

(torreira; regata da ria; 2010)

crónicas da xávega (147)


dos euzinhos

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que escrevam depois
o que foram
é coisa que também
me importa

escrever o passado
é trabalho
minucioso e de valia

mas fazer parte dele
porque se foi presente
é coisa que no café
à secretária a facturar
alguns sonham enquanto
flores e aves registam
para postais institucionais

lembro-me deles
quando me dói estar longe
com fome de mar

não são das gentes
da terra que dizem sua
são por si para si

euzinhos

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(torreira; companha do marco; 2009)

postais da ria (149)


ser quase nada

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a ria por destino

ser o que passa sabendo
que ao passar
deixa o ter sido nada mais

escrever-me aqui
onde nem papel
é ser quase nada
onde por ilusão

tantos

julgam ser
quase tudo

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henrique brandão e o filho, henrique também, arrumam as redes da solheira

(torreira; marina dos pescadores)