da vida

depois de safadas as redes regressam à ré
o meu amigo henrique
pardilhoeiro
na ria é assim
nome próprio dão os pais
alcunha apelido
é coisa da vida

arrumadas à ré, prontas a serem largadas quando da maré
(torreira; porto de abrigo)
da vida

depois de safadas as redes regressam à ré
o meu amigo henrique
pardilhoeiro
na ria é assim
nome próprio dão os pais
alcunha apelido
é coisa da vida

arrumadas à ré, prontas a serem largadas quando da maré
(torreira; porto de abrigo)
só esses

a companha carrega o saco na zorra
vêm da terra as vozes
que não ouvimos
o termos nela raízes
é o silêncio de sermos
sem necessidade de alarido
escrevo nós
e não é o pronome que ouço
são os laços
tão fortes e tão frágeis
que o tempo romperá a seu tempo
não precipites os dias a haver
vítima serás
se carrasco quiseres ser
abraço quem me abraça
escreveu o poeta
eu também
só esses

todos unidos, são a companha
(torreira; companha do marco; 2015)
assim sejam

Foram os escolhidos
Almoçaram os mortos
Mais lembrados
Iludiram-se as ausências
Lavaram-se mãos e olhos
Irmãos pais primos tios
Assim se quiseram
assim sejam

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)

PAGUEM O QUE DEVEM AOS MOLICEIROS
enviem esta mensagem para:
geral@regiaodeaveiro.pt
que é o mail da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro – Baixo Vouga (CIRA), organizadora da regata da ria 2015.
não basta gostar dos moliceiros é preciso lutar por eles e com eles
geral@regiaodeaveiro.pt – PAGUEM O QUE DEVEM AOS MOLICEIROS

(torreira; regata da ria; 2013)

não é para todos

(torreira; companha do marco; 2013)
nem isso
(TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
……………….
Álvaro de Campos)

sequer os sonhos
apenas estas linhas
perdidas no branco
esta sombra
coisa nenhuma
a esvair-se
ao fundo
muito ao fundo
uma voz
nem isso

(torreira)
paguem aos moliceiros

no tempo em que os animais
falavam
os burros andavam de orelhas
murchas
agora que os homens falam
não há quem ature os burros
paguem aos moliceiros

(torreira; regata do s. paio; 2014)
amigos

a equipa do reçoeiro, da companha do marco, em 2010, quando a manga chegava e era necessário pedir reforço:
da esquerda para a direita
– joão rodinhas (agora no bacalhau)
– ana amaral
– alfredo amaral
– miguel biatolra
– nicole (falecido)
a memória é isto, saber-lhes os nomes e vê-los aqui, mesmo quando já não.

(torreira; companha do marco; 2010)
vagueio-me

sento-me em mim
e olho tudo como se
pela última vez
a minha voz
é não a ter
e escrevo porque
não tenho nada
de novo para dizer
vagueio-me

(torreira; porto de abrigo)
pagai

falo dos moliceiros
e digo os homens
que do mesmo nome
arrolados
(linguagem de moliceiro)
os que não pagando
deles se servem
quais senhores feudais
dos tempos modernos
vassalagem quereis?
pagai-a então
que de palavra honrada
devíeis ser
homens

(torreira; regata da ria; 2010)