espero-me

no refazer dos dias
não se refaz o sonho
a rede que fiz
afoguei-me nela
do mar trouxe pedras
quando outros peixe
fui pescador sem o ser
corri muito para nada
cansado de tanto
vou ser eu onde
espero-me mais além
(torreira; 2016)
espero-me

no refazer dos dias
não se refaz o sonho
a rede que fiz
afoguei-me nela
do mar trouxe pedras
quando outros peixe
fui pescador sem o ser
corri muito para nada
cansado de tanto
vou ser eu onde
espero-me mais além
(torreira; 2016)
iludi-me

torreira, 2016_o arrumar das redes da solheira
da estrada larga
dos luminosos caminhos
infinitamente breves
o maior está feito
o sonho a ilusão
aquilo que me fez correr
hoje nada mais que memória
olho para tudo
com o cansaço de ter feito
sem saber se algo feito foi
tenho a sensação de deixar
tudo como era
faz bem perder as ilusões
sempre me senti barco
mas iludi-me com o porto
iludi-me
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho+
falo da solheira
(torreira; 2017)
o tamanho dos homens

os homens têm o tamanho
inverso dos seus medos
se o medo do mar
os faz grandes
o medo dos homens
os faz pequenos
fui ao mar em terra
e vi -lhes o tamanho

(torreira; 2016)
eis o cipriano

se um homem
se pode definir
pelo gesto
eis o cipriano

(torreira; 2008)

cipriano brandão (gamelas)
cipriano
não sei onde estás
sei onde te deixaram
cipriano
não nos vamos
encontrar mais
mas cipriano
fazes parte
da minha torreira
farás sempre

o cipriano, no mar, em 2010
(cipriano brandão_gamelas, torreira; 2010)
escrevo porque

por vezes
só os barcos arribam
à mesma praia
não escrevo
para que me oiças
escrevo porque sinto

(torreira; 2013)
as imagens têm nomes

houve os que partiram
há os que ainda
haverá outros amanhã
guardo muitos comigo
mais que os barcos
mais que as artes
os homens
as mulheres
a canalha
as imagens têm nomes
são gente
sinto-a poisada nos dias
(torreira, 2017)
sorriem muito

mãos de mar, mãos de luta
não tomam posição
sentam-se à mesa do mas
trocam ideias discutem
não concluem nunca
gostam muito do talvez
evitam nãos e sins
são espectadores
que querem palco
de bandeja sem suor
à janela dos dias
esperam um vaso de flores
no peitoril dos olhos
de tão subviventes
conseguem
ser sobreviventes
sorriem muito
(torreira; 2015)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira