crónicas da xávega (297)


xávega, os rolos de corda

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o reçoeiro e a mão de barca são das duas cordas (cordadas) que fazem fixe no calão e através das quais se faz a alagem do aparelho.

cada uma destas “cordadas” é constituída pela união de “rolos de corda” ou “peças de corda” com 220 metros de comprimento.

o arrais marco, chega a utilizar 8 a 9 rolos num lanço, ou seja a rede é largada entre 1760m e 1980m da costa.

o enrolar dos rolos, no momento da alagem e a sua disposição correcta durante o aparelhar do barco, garantem um desenrolar sem problemas durante o “largar” do aparelho.

(torreira; companha do marco; 2010)

ti miguel bitaolra

crónicas da xávega (296)


a primeira flor
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a minha amiga cacilda, mulher do mar da torreira

 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
abrem-se no rosto trilhos
salgados de tanto mar
perdem-se no longe os olhos
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
falarei sempre do sonho
quando no infinito os olhos
inventarem um ser diferente
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
amanhã minha neta
que foste do meu sangue
a primeira mulher
não terás o rosto assim
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
mas são estes os rostos
que eu quero que lembres
e faças teus porque meus
deste ter sido aqui mais um
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
mas
hoje é o teu primeiro dia
e esta a flor que te ofereço
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a minha amiga cacilda, mulher do mar da torreira

 
(torreira; 2013)

crónicas da xávega (294)


pedras
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a manga do reçoeiro a passar no alador

 
a meio do caminho
surgem muitas pedras
no meio do caminho
 
difícil saltar por cima
das pedras
mudar de caminho
não será fácil
 
mas
a meio do caminho
ainda falta outro meio
 
mude-se de caminho
as pedras são o que são
pedras e nada mais
 
(torreira; 2016)
 

crónicas da xávega (287)


o bairro da liberdade
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insuportável o grito
o terem razão e serem calados
 
a lenta construção da mentira
a segunda morte
 
insuportável o grito
a lenta construção da mentira
 
a segunda morte
o terem razão e serem calados
 
um bairro uma avenida
os marginalizados no centro
 
(torreira; a mão de barca; 2012)