reinventar tudo

quando a nascente nega o rio
desaguar no deserto
não é assim tão estranho
há ainda flores por nascer
e um copo de água
não se nega a ninguém
hoje reinvento tudo

(murtosa; regata do bico; 2007)
reinventar tudo

quando a nascente nega o rio
desaguar no deserto
não é assim tão estranho
há ainda flores por nascer
e um copo de água
não se nega a ninguém
hoje reinvento tudo

(murtosa; regata do bico; 2007)
a destruição da memória

em 2006 o “José António” ainda velejava na ria.
foi vendido para o turismo, amputado nos canais de aveiro.
assim se constrói a memória por cá.

(regata do bico, 2006)
9 de agosto
depois de ter passado 3 a 6 meses mergulhado na água salgada da ria, foi dada ao bordo a forma definitiva, de acordo com o molde do mestre, e aplicado ao costado.
hoje foi o bordo de estibordo.
na hora da aplicação parece que os amigos se multiplicaram e foram muitos os que apareceram para ajudar.
do nuno setenove ao ti alfredo, nos extremos do registo, houve gente da terra, de fora, emigrantes ou simples curiosos, que deram a mão.
a celebração do moliceiro, enquanto objecto de solidariedade e de amor pela terra, começa na sua construção.
(torreira; 9 de agosto de 2016)

8 de agosto
depois de marcado no costado o posicionamento do bordo, de acordo com o molde de bordos, faz-se a aplicação do bordo.
pela dimensão, pela espessura, pelo afeiçoamento que é necessário fazer, é uma tarefa delicada e que, ao mesmo tempo, exige muita força e saber.
qualquer procedimentos menos adequado pode levar ao quebrar do bordo e a um prejuízo enorme.
antes de começar a aplicação do bordo, o mestre zé rito, parou por uns momentos e disse:
” como dizia o mestre henrique lavoura, antes de aplicar um bordo é preciso descansar um bocado”.
QUER É CALMA
todos os presentes ajudaram, até um turista francês que começou por fotografar, acabou por dar a sua mão – é o segundo na fila a contar da direita.
(torreira, 8 de agosto de 2016)

6 de agosto
depois de feitas as marcações na tábua do casco, o mestre zé rito aplica sobre ela o molde dos “bordos”, seguindo a parte superior do molde é feita a marcação do bordo.
em seguida é feito o corte da tábua para aplicação dos bordos.
(torreira; 6 de agosto de 2016)

5 de agosto
o folhear da proa
hoje para além do começar da “coxia”, continuou-se o folheamento do costado.
neste registo vemos o mestre zé rito a fixar a tábua de costado, apertada pelos grampos e pressionada por mãos amigas: havia-as da torreira, de estarreja … de amigos.
a construção de um moliceiro é uma celebração.
(torreira; 5 de agosto de 2016)

3 de agosto (cont.)
apertando os grampos, o mestre zé rito força o arqueamento das tábuas que formam os costados do barco – é o folheamento de que já falei.
por cima desta serão colocados os “bordos”.
(torreira; 3 de agosto de 2016)

ao meu funeral
(que não vai haver)

o “Doroteia Verónica”
irão
alguns
para se despedirem
outros
por ser conveniente
muitos
para confirmarem que
o preto é uma cor
sempre na moda
emagrece e fica bem
e depois
roupa preta
quem a não tem?
EU!

mais um moliceiro que teve de ser vendido e anda amputado pelos canais de aveiro
(murtosa; regata do bico; 2009)
da amargura

o manuel fonseca (manuel tala) a cirandar berbigão
quando o conhecido
se torna desconhecido
é tempo de ser outro
os navios partem
sem saber de regresso
semeando o mar
de saudades amargas
fecham-se portas
outrora escancaradas
e não há janelas
por onde luz venha
é tempo de ser outro

o colorido dos dias é agora outro
(torreira; julho; 2016)
NÃO DEIXEM MORRER OS MOLICEIROS!

momentos finais da regata da ria 2016.
os 3 primeiros estão definidos: em primeiro lugar o “Zé Rito”, em segundo o “A. Rendeiro” – por dentro – e em terceiro o “Marco Silva” – por fora.
até ao fim sempre juntos e com pouca diferença.
houve regata, sim, houve competição, sim. os moliceiros mostraram o que valem e como podem dar vida à ria.
NÃO DEIXEM MORRER OS MOLICEIROS!

(regata da ria 2016)
3 de agosto
depois de fixada a bica da proa, continua-se o “folheamento” dos costados do moliceiro.
neste registo o ti zé rebeço, de passagem pelo estaleiro, ajuda a dobrar uma tábua afeiçoando-a ao costado, enquanto o mestre zé rito aperta a madeira com os “grampos”.
em breve o barco estará fechado.
uma coisa é verdade e constante na torreira: a construção de um moliceiro é ponto de encontro de todos, não falando das visitas.
o mestre não tem aprendizes: tem amigos

2 de agosto
depois de colocadas as cavernas e os braços e com uma cinta de costado. faltava a colocação da bica da proa para que o moliceiro tivesse a sua forma final.
o mestre zé rito, ajudado pelo amigo nuno cunha (setenove) fixa a bica da proa.
a beleza do moliceiro enriquece-se a cada dia

30 de julho
o molde
os mestres contrutores navais passavam aos aprendizes o seu saber não só pelo ensinamento das boas práticas, mas também pelos modelos de que serviam para a construção dos barcos.
os paus de pontos e os moldes, são dois exemplos.
neste registo o mestre zé rito, usa o molde das cavernas e braços – que lhe foi oferecido pelo mestre joaquim raimundo e posteriormente adaptado a seu gosto – para recortar mais um braço de um pedaço de pinheiro manso

30 de julho
continuação da feitura e montagem dos braços. neste registo o “afeiçoar” de um braço

29 de julho
o mestre zé rito a fazer “braços” e vê-se já o barco com tábuas de costado

26 de julho

18 de julho

de mim

a manga corre por entre os bordões cruzados
tudo o que te disserem
a meu respeito
é verdade
mesmo as mentiras

o saco aproxima-se, a rede corre sem tocar na areia
(torreira; companha do marco; 2013)
nunca mais

rapa-se o cabeço em busca ameijoa ou berbigão
à beira ria juntam-se
os que regressaram
contam os dias idos
o tempo em que partir
já era urgente
não por ser parca a safra
mas sem futuro
o que a vida prometia
do que havia então
pouco resta
nem moliço nem peixe
sequer a ria
olha-se tudo com tristeza
regressou-se à ausência
vive-se com a memória
sente-se que o fim de tudo
não tarda e repetem
não há futuro aqui
nunca mais

a névoa cobre tudo, até o futuro
(torreira)

já com sombra, o mestre zé rito e o zé rebelo (dono do barco) trabalham
à terra arrancada
seca cortada afeiçoada
da árvore a memória
reconstruída pelo homem
a reinvenção do barco
à sombra por fim oferta
o homem cresce
vergado ao peso da obra
amanhã vamos plantar
uma árvore na ria

o zé rebelo aplica gordura para preservar a madeira
(torreira; 26 julho, 2016)