o tempo é pouco

o ignorante
não sabe que não sabe
o sábio
sabe que não sabe
os que não sabem
nem querem saber
ensina o sábio
que se ignorem
o tempo é pouco

(torreira)
o tempo é pouco

o ignorante
não sabe que não sabe
o sábio
sabe que não sabe
os que não sabem
nem querem saber
ensina o sábio
que se ignorem
o tempo é pouco

(torreira)
urgente

a picada do peixe aranha
provoca uma dor horrível
há porém quem os coza
e saboreie como petisco
é tudo uma questão
de treino e sabedoria
a culinária é uma arte
que tenho de aprender
rapidamente

(torreira; companha do marco; 2011)
olhei e não vi

olhei e não vi o barco
vi o esqueleto
a madeira
olhei e não vi o estaleiro
vi a areia o sol em brasa
o mestre as ferramentas
o suor no rosto
olhei e não vi nada
não posso ver
olhei só
e lembrei-me de ter visto
o mestre há alguns anos
no estaleiro à beira porta
a fazer o mesmo
construir um moliceiro
mas à sombra de uma rede
a dele
quanto mais olho
menos quero ver
asneira sobre asneira
se constroem os dias
se destrói o sonho
se enterra a memória
não escrevo para que gostem
registo para que se interroguem
passo e não vejo mas olho
e não resisto
até estar de férias aqui
começa a ser complicado
ser cego dói ver dói mais
todo o absurdo aqui é real
(torreira; 18 de julho de 2016)

o mestre zé rito constrói mais um moliceiro, agora para o zé rebelo. ao lado ” ….O Museu-Estaleiro da Praia do Monte Branco, propriedade da Câmara Municipal da Murtosa,….”
por vezes leio jornais

cabrita de pé
sei que são muitos
sei que fazem desta arte
modo de vida uns
de sobrevivência outros
de opulência poucos
sei que são muitos
mas que cada um
é um não é todos
sequer muitos
quisera alguns
sei que não sei nada
mas oiço muito
leio um pouco
aprendo todos os dias
sei que nada sei
mas o que não sei
que não sei
é muito mais que
tudo o que sei
e assusto-me
com tanto
sei que eles sabem
sei que se queixam
sei que nada fazem
sei como são
eles também
e há quem saiba muito mais
eu?
eu só tiro fotografias
por vezes leio jornais

muito dura a arte da cabrita
(torreira; cabrita de pé)
para o meu amigo ricardo

aparelhar
só foi há 4 anos
ou
já foi há 4 anos?
esta coisa do tempo
e do senti-lo
tavas gordinho puto

a memória
(torreira; companha do marco; 2012)
monólogo do moliceiro

o moliceiro “Zé Rito” já na frente
só o vento
sabe porque vou resistindo
só o vento
e os homens que o meu nome
carregam

e ficou em 4º lugar
(regata da ria 2016)
boas fotos

chegaste agora
não sabes os nomes
não conheces as histórias
trazes contigo uma máquina de fotografar
olhas e encontras o motivo
disparas repetidas vezes
gostas do que viste e registaste
ignoras tudo o que para além do registo
desfrutas do olhar e sorris
quando lês o exif
e se
a perspectiva real for inversa da registada ?
e se
aquele homem ao fundo tiver nome ?
e se
o que ele traz no braço for parco para tantas horas
de esforço quase insuportável ?
e se
em vez de olhares e fazeres (digo eu)
um registo interessante de perspectiva
procurasses respostas para o que registas ?
então
não estarias aqui de férias em busca de imagens
serias mais um na comunidade e isso
meu amigo aqui pode ser perigoso
boas fotos

(torreira; junho; 2016)
as palavras e as imagens

o “M. FÁTIMA” novo e a primeira grande pancada de mar
é normal procurar imagens para as minhas palavras, mas a foto de hoje deixou-me sem elas.
há dias assim, de olhar só

há anos que não fazia uma foto destas. grande barco!
(torreira; 14 de junho de 2016)
falo do tempo

a nortada leva o tempo
vive
hoje
amanhã
é ontem
vive

se há beleza é porque a vês quando olhas
(torreira; regata da ria; 2016)
sei lá

a rapar na lama para apanhar berbigão
mal me quer
bem me quer
sei lá

apenas a beleza
(torreira; junho; 2016)