postais da ria (185)


bota c …..

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o trabalho começa dias antes com a reparação e pintura das bateiras e dos remos. têm de estar lindas e em condições de correr na grande festa do s. paio, na corrida a remos.

são “bateiras de bicas”, “chinchorros”, maiores que as “bateiras caçadeiras” e já não são muitas. formam-se as equipas, fazem-se as inscrições e recebem-se as camisolas, de cores diferentes por bateira e equipa.

no sábado é a corrida, a mais emocionante e rápida de todas as que se realizam no s. paio: não chega a durar 8 minutos e é só emoção.

espetadas do lado da serra – para os pescadores os pontos cardeais são: mar, serra, baixo e cima – as varas que marcam a posição de partida, cada bateira tem a sua, as equipas partem da zona do guedes – um nome que ficará para além do tempo – e, a remos ou a reboque, vão calmamente ocupar o seu lugar.

há sempre uma ou duas equipas de mulheres, ou com mulheres. numa dessas equipas ia o meu amigo setenove, já no meio da ria, quando lhe pedi para montar a câmara na bateira em que ia, disse que não e indicou-me aquela em que a montei, gritando:

bote na “marisa e andré” que essa ganha!

montar a câmara foi uma aventura, quando saí da bateira não sabia se tinha ficado a gravar ou não – a pressão da equipa, a ondulação da ria com nortada e, no fim, o cinto preso nos golfiões…. foi só stress.

quando vi que tinham de facto ganho a corrida, a minha tensão aumentou de novo: e se não tivesse gravado?

quando cheguei à bateira, um pescador, membro da equipa, sossegou-me:

gravou sim, que eu pus a mão à frente e vi que estava a gravar.

só em casa descansei quando visualizei a gravação e depois de tomar um calmante.

o resultado está aqui, mas não chega aos calcanhares da emoção que se vive a acompanhá-los, quanto mais participando.

nota: as palavras valem pelo modo e contexto em que são ditas. no meio da ria, em plena competição, as palavras nascem das vísceras de cada um e chegam à boca limpas de qualquer outro significado que não seja: bota! o mais são adornos locais. sintam-nas nesse contexto e se, por acaso, da vossa boca saíssem outras, lembrem-se de que o significado seria o mesmo.

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o fime

(torreira; 3 de setembro de 2016)

os moliceiros têm vela (233)


insurrecto!

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o ti abílio carteirista ao leme e controlar a vela

se há alguém que diz esta palavra de uma forma muito especial é o ti abílio fonseca (carteirista), dono do moliceiro “Dos Netos”. ora bem, este ano, na regata do s. paio foi, pelo menos, um insurrecto com ele: eu. ia mais uma pessoa a bordo, o carlos lopes franco, mas não serei eu dizer o que ele é, para além de ser um grande fotógrafo.

feita esta pequena nota, comecemos a aventura. o ti abílio não tinha camaradas para o ajudarem no manobrar do barco, por isso e porque parecia que não teríamos grande vento, perguntei-lhe se podia ir sozinho, comigo e com o carlos. lá fomos – entrámos e saímos do moliceiro no meio da ria!

as fotos que fiz, não muitas, foram de dentro do moliceiro e ao moliceiro com mais idade inscrito nesta regata, 79 anos, que manobrou sozinho o barco. eu e o carlos, recebíamos ordens, mas do género: saiam daí! vão para cima do vento! olhem a toste! baixem a cabeça! ponham os pés nas cavernas! (aqui o carlos olhou-me interrogativamente: que diabo ele tinha vindo de lisboa para fotografar uma regata de moliceiros e estava debaixo de fogo, numa guerra em que nunca tinha estado) …. e outras.

impressionante a agilidade e a força com que, repito, aos 79 anos, o ti abílio corria do leme para as tostes, das tostes para a vela ….. saiam da frente!

espero que os registos fotográficos e fílmico que fiz desta aventura, retratem a fibra de um homem e mostrem como se manobra um moliceiro. se conseguir, por pouco que seja, mostrar algo deste fenómeno sinto-me feliz.

ficam para outra publicação, algumas meditações sobre a regata. o insurrecto ainda está vivo

(torreira; 4 de setembro de 2016)

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dentro do moliceiro “Dos Netos” e com “O Amador” na peugada

construção de um moliceiro – 31 de agosto


era uma vez “Um sonho”

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foram muitos os que hoje vieram assistir ao bota-abaixo do moliceiro “Um sonho”, fotógrafos, amantes do moliceiro, a televisão, autoridades locais, curiosos, gente da terra e de fora…

o barco passou nas provas e regressou de uma breve viagem na ria, em que o mestre zé rito mostrou o que valiam: ele e o barco que acabara de fazer.

queria lembrar aqui que, em 2015 e 2016, 3 novos moliceiros tradicionais foram construídos:

2015

– o “Marco Silva”, feito pelo arrais/mestre marco silva, com o apoio do mestre firmino tavares, filho do mestre agostinho tavares de pardelhó.

2016

– o “Bulhas” feito pelo mestre antónio esteves, da escola do mestre henrique lavoura, também de pardelhó

– o “Um sonho”, feito pelo mestre zé rito, da escola da família raimundo, da murtosa.

são dois anos de luxo para a ria de aveiro. há muito que se não assistia a esta intensidade de construção de moliceiros.

convém lembrar que todos os custos com a construção, pinturas, palamenta e licenças, foram suportadas pelos proprietários, sem quaisquer apoios oficiais.

mais que um barco, o moliceiro, repito-o e repeti-lo-ei tantas vezes quantas as necessárias, é a mais forte expressão da cultura de um povo e um barco único no mundo – o mais belo de todos.

desculpem então se pergunto, e perguntarei tantas vezes quantas as necessárias, porque não é apoiada financeiramente a sua construção?

ao menos para compensar o tempo de antena na televisão.

mas, eu sou dos tais fotógrafos que só aparecem por aqui em certas alturas, nas férias, não têm nada a ver com a terra e só fazem perguntas estúpidas.

“tende-vos calmos que estou de partida.”

viver é ter coisas para fazer e eu tenho muitas para fazer ainda.

parabéns zé rito, boa sorte zé rebelo, obrigado amigos com quem reparti estas últimas semanas e me fizeram sentir mais um entre vós.

estou vivo e recomendo-me.

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(torreira; 31 de agosto de 2016)

(nota: as crónicas que têm acompanhado este diário, são da minha autoria e assumo por elas a inteira responsabilidade, independentemente de quem está nas fotografias ou é nelas identificado. as minhas opiniões são minhas e de mais ninguém)

construção de um moliceiro (16)


30 de agosto

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este registo foi feito ao princípio da manhã, ainda o moliceiro estava virado sobre bombordo. depois foi virado sobre estibordo e muitas foram as pequenas tarefas levadas a cabo durante o dia: calafetar, pintar, decorar, preparar o mastro, pintar falcas …. enfim uma infinidade de pequenas coisas que, quase sempre, tão portuguêsmente na
véspera, são o começo do fim da obra.

quis com este registo fixar os dois símbolos da murtosa: o moliceiro e a bicicleta. qual o murtoseiro que não se revê neles e, com eles; relembra histórias da sua vida?

foi o que aconteceu enquanto o mestre zé rito, o avelino e o setenove construíam o moliceiro. o josé oliveira e o pai, necas lamarão, pintavam as decorações. sim, eles foram os principais obreiros.

todos os dias nos encontrávamos ali, para o que desse e viesse. e, para além da mão que se ia dando quando necessário, vinha tanta coisa à conversa, foram tantas as histórias, as piadas, uma companhia que, ao mesmo tempo, se fazia aos que davam no duro.

enquanto o moliceiro era construído outras histórias se construíram.

vieram espanhóis, franceses, alemães, holandeses, portugueses emigrados, antigos moliceiros …. e todos ali estiveram como se em casa.

aconteça o que acontecer é impossível esquecer estes dias em que de manhã à tarde se conviveu com os mestres e a obra.

amanhã às 15 horas o “novo filho da ria” – frase do setenove – vai beijar a mãe. seremos muitos a assistir e a sentir que um pouco de nós vai com ele também.

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(torreira; 30 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (15)


29 de agosto

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depois de almoço chegámos ao estaleiro quase ao mesmo tempo, eu e o mestre zé rito. os dois e um moliceiro quase acabado.

com a rebarbadora o mestre lixava e depois afagava – interessante esta palavra – a madeira com a mão, para sentir a perfeição do trabalho efectuado.

palavras poucas, ouvia-se a rebarbadora, corria no ar uma poeira fina de madeira e o fundo do moliceiro adquiria um face nova.

havia ainda muito para fazer: calafetar, aparafusar, betumar, colocar pequenas cavilhas de madeira em pequenos furos…. tudo coisas miúdas, mas muitas.

ao longo da tarde foram chegando os amigos e o material que fazia falta. o mestre continuava sozinho, o seu trabalho enquanto a conversa o envolvia e amenizava a dureza da exposição ao sol.

na edição deste registo, mais que um momento queria transmitir um sentimento: o da solidão do mestre.

não sei se o consegui, mas depois de ter estado quase todo o dia no estaleiro só tinha uma frase para descrever o dia de hoje:

a solidão do mestre

espero que a sintam

NOTA – o bota- abaixo é pelas 15 horas, de quarta-feira dia 31

(torreira; 29 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (14)


28 de agosto

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o dia de fechar o fundo do moliceiro.

como se pode ver no registo de ontem, faltava colocar tábuas no fundo do moliceiro e fazer assim o fecho do fundo.

o olhar sabedor do mestre zé rito levou-o a escolher, do armazém, as tábuas de dimensões ideais para o efeito.

depois procedeu ao seu afeiçoamento de acordo com o método artesanal, que eu designo de “aproximações sucessivas”. é interessante ver o que separa os procedimentos científicos dos procedimentos artesanais.

sentado num banco/tronco ia espreitando pelas aberturas, ainda existentes no fundo, e por elas via os dois moliceiros que estavam ancorados na ria em frente ao estaleiro. eram janelas ideais para fotografar.

levantava-me de vez em quando e fazia uns registos.

a pouco e pouco fui ficando sem janelas, o fechar do fundo tapava-me a vista: um moliceiro novo enchia-me agora todo o campo visual. e isto também era novo.

neste registo o avelino ajuda a colocar a última tábua. quando ficou no sítio, levantei-me e saí.

muito trabalho há ainda por fazer. desde meter cavilhas, emassar, pintar ….. e voltar a virar de novo o barco para ser acabada a decoração, ser cheio de água e a madeira “fechar”.

amanhã também é dia, mas há cada vez menos dias.

(torreira; 28 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (13)


27 de agosto

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porque hoje é sábado e se avizinha o s. paio, muito mais gente se reuniu no estaleiro em torno do moliceiro em construção.

a meio da tarde, os mestres prosseguiam o trabalho quando, de repente, do meio dos amigos se ouve uma voz elevar-se:

– eh zé! com tanta gente aqui porque não aproveitas para virar o barco?

em pouco tempo parou a pintura e começaram os preparativos para virar o barco. esperava-se que, desta vez, viesse uma máquina para o fazer, mas os homens mandam mais.

seriam cerca da 17h30m quando o barco ficou virado – quase na vertical transversa – escorado a bombordo e estibordo, de forma a que se pudessem colocar as tábuas de fundo, que faltam para fechar totalmente o barco. não sei se as colocaram ainda hoje,,,, tudo é possível.

no final, comentava com um amigo: alguns dos que ajudaram, nunca imaginaram que o viriam a fazer de novo.

chamei o ti alfredo do táxi – 77 anos de vida repartidos entre a torreira e os estados unidos – e perguntei-lhe se contava, alguma vez voltar a fazer isto. a resposta, foi rápida e simples:

– foi a primeira vez que ajudei a virar um moliceiro novo.

para mim, pessoalmente, esta foto tem ainda outro valor, porque se houve um gorim que fez o registo, houve outro que ajudou a virar o barco, o meu primo domingos.

em torno de um moliceiro o que não pode acontecer!

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(torreira; 27 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (12)


26 de agosto

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em todos os processos há sempre alguém, por vezes muitos, cuja presença silenciosa e trabalho dedicado, torna a obra possível. ninguém fala deles, ninguém deles se lembra, mas sem eles não teria havido obra.

chama-se avelino, para que conste, mas poderia ter muitos nomes, tantos quantos os que não deixaram o nome ligado a qualquer obra.

pinta, serra, varre, ajuda em tudo e em tudo deixa um pouco de si. fala pouco, sorri por vezes, não pára quase nunca.

neste registo, está a pintar o leme que ajudou a fazer, deixando o círculo que o pintor preencherá com o símbolo do mestre construtor.

já pintou as falcas, irá dar bondex no interior do barco, fará o que o mestre lhe pedir. porque ambos se conhecem o suficiente para saberem até onde cada um pode ir.

o mestre zé rito continua a fazer peças de madeira, os pintores decoram bordaduras, painéis, dão ao moliceiro a vida que o torna mais belo ainda.

os que assistimos, e somos sempre muitos, fazemos o que podemos quando nos pedem ou sentimos que podemos ser úteis.

contam-se histórias de vidas e há em todos, excepto no mestre zé rito, um certo nervosismo quando se fala na data de conclusão da obra.

o mestre continua a sorrir, a trabalhar e, quarta-feira, o barco irá pela primeira vez beijar a ria. ele sabe-o e isso basta.

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(torreira; 26 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (11)


25 de agosto

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os trabalhos têm continuado a bom ritmo, apesar da chuva de ontem.

neste registo pode ver-se o mestre zé rito a cortar a última tábua do leme, o pintor josé oliveira – zé manel, na beira ria – a pintar a bordadura do painel da ré e o pai, necas lamarão, a pintar a antepara da proa e o vertente.

o interesse deste registo reside no facto de que todos eles estão de costas, sendo assim os intervenientes identificados nominalmente aqui, mas representando toda uma tradição de construção naval artesanal de moliceiros.

repare-se que no bordo de estibordo já estão colocados os pés das falcas, a que se seguirá a fixação das mesmas.

as falcas de estibordo estão quase prontas.

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(torreira; 25 de agosto de 2016)