a construção de um moliceiro (2)


12 de agosto (conclusão)
serve este registo para mostrar outro acessório necessário à colocação das dragas e dos bordos: a gata.

à esquerda vê-se um grampo a prender a draga ao bordo exterior, à direita “a gata” engata por debaixo da draga que, alavancada por uma vara de madeira pressionada por 3 homens, é elevada à altura pretendida.

depois é apertada pelo grampo e finalmente fixada ao bordo por meio de ferragem adequada.

0 ahcravo_DSC_8382

12 de agosto (cont)

colocada a draga dentro do casco, começou por ser fixada à ré, com o grampo que se vê em primeiro plano.

depois é ajustada à proa e elevada com a ajuda de uma alavanca improvisada.

por ser uma tarefa de alguma complexidade e interesse, irei documentá-la um pouco melhor.

0 ahcravo_DSC_8268

12 de agosto

a draga de bombordo está pronta a ser colocada no interior do casco.

embora o trabalho do dia se tenha concluído com a fixação da draga, pretendo com este registo mostrar o espírito que habita as gentes da beira ria quando se constrói um moliceiro: solidariedade e companheirismo.

assim fosse sempre e em tudo

0 ahcravo_DSC_8251

a união faz a força

11 de agosto

a draga é “afeiçoada” à curvatura do bordo, com a ajuda de grampos que fazem fixe entre o exterior do bordo e o exterior da draga. assim ficam os dois perfeitamente paralelos.

neste registo vêem-se vários grampos já fixados e o setenove a preparar mais um que colocará com a ajuda do mestre zé rito ou, ao contrário, que o mestre zé rito colocará com a ajuda dele.

0 ahcravo _DSC_8209

 

10 de agosto

as dragas são peças análogas aos bordos, sujeitas ao mesmo tratamento, e que correm por dentro das cavernas e braços, paralelas aos bordos.

hoje o mestre zé rito, sempre com a ajuda e a presença do avelino, afeiçoou uma draga, que tal como os bordos esteve mais de 3 meses mergulhada na ria.

sente-se no ar o cheiro a lodo e o aroma da madeira é diverso.

0 ahcravo_DSC_8184

o mestre zé rito serra a madeira, enquanto o avelino vai varrendo a draga para manter visível a linha de corte

os moliceiros têm vela (232)


regata do bico 2016

0 ahcravo_DSC_7786_ o amador bw

” O Amador” a chegar ao cais do bico

participantes e posição à chegada:

classe A

1º – Zé Rito
2º – Marco Silva
3º – A. Rendeiro
4º – Dos Netos
5º – O Amador
6º – C.M. Murtosa

desistiram

S. Salvador
Manuel Silva
Bulhas

Classe B
(não entram para a competição)

Sermar
Ecomoliceiro

no final da regata foram entregues, pelos autarcas da murtosa, as medalhas de participação e as taças até ao 5º lugar.

foi anunciado de que havia prémio de participação e, como é hábito, deve haver também um de “posição à chegada”. os valores não foram divulgados, nem os moliceiros com quem falei o sabem.

alguma explicação há-de haver, e penso que de força maior, para que assim seja. eu só fui fotografar a regata.

aliás, havia muitas máquinas no cais do bico, vindas de muito longe, algumas até de lisboa. os moliceiros trazem às regatas um público muito especial: fotógrafos amadores.

espero que as organizações das regatas entendam, numa época em que se fala tanto de “turismo temático”, o potencial que eles representam.

só mais uma pequena nota, hoje no estaleiro do mestre zé rito, onde se está a construir o moliceiro do zé rebelo, um francês dizia-me:

– em frança só na bretanha se fazem barcos desta forma artesanal, mas não são para particulares, são para património.

mais uma para registo

0 ahcravo_DSC_7786_ o amador

o mestre felisberto caçoilo chega ao bico à proa d’ “O Amador”

(cais do bico; 7 de agosto, 2016)

o moliceiro “O Amador”, do mestre felisberto caçoilo, a chegar para a regata ainda pela manhã.

são imagens como esta que me levam a estar cedo e a passar muitas horas no recinto.

os moliceiros têm vela (231)


do tamanho

0 ahcravo_DSC_7741 bw

(relendo fernando pessoa
«Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.»)

olho à minha volta e vejo
que nesta terra
os que nela mandam
não têm sequer
o tamanho da altura que têm

como poderão ver?

0 ahcravo_DSC_7741

(murtosa; regata do bico; 2013)

construção de um moliceiro (1)


9 de agosto

depois de ter passado 3 a 6 meses mergulhado na água salgada da ria, foi dada ao bordo a forma definitiva, de acordo com o molde do mestre, e aplicado ao costado.

hoje foi o bordo de estibordo.

na hora da aplicação parece que os amigos se multiplicaram e foram muitos os que apareceram para ajudar.

do nuno setenove ao ti alfredo, nos extremos do registo, houve gente da terra, de fora, emigrantes ou simples curiosos, que deram a mão.

a celebração do moliceiro, enquanto objecto de solidariedade e de amor pela terra, começa na sua construção.

(torreira; 9 de agosto de 2016)

0 ahcravo_DSC_8058

8 de agosto

depois de marcado no costado o posicionamento do bordo, de acordo com o molde de bordos, faz-se a aplicação do bordo.

pela dimensão, pela espessura, pelo afeiçoamento que é necessário fazer, é uma tarefa delicada e que, ao mesmo tempo, exige muita força e saber.

qualquer procedimentos menos adequado pode levar ao quebrar do bordo e a um prejuízo enorme.

antes de começar a aplicação do bordo, o mestre zé rito, parou por uns momentos e disse:

” como dizia o mestre henrique lavoura, antes de aplicar um bordo é preciso descansar um bocado”.

QUER É CALMA

todos os presentes ajudaram, até um turista francês que começou por fotografar, acabou por dar a sua mão – é o segundo na fila a contar da direita.

(torreira, 8 de agosto de 2016)

0 ahcravo_DSC_7834

6 de agosto
depois de feitas as marcações na tábua do casco, o mestre zé rito aplica sobre ela o molde dos “bordos”, seguindo a parte superior do molde é feita a marcação do bordo.

em seguida é feito o corte da tábua para aplicação dos bordos.

(torreira; 6 de agosto de 2016)

0 ahcravo_DSC_7696 1

5 de agosto

o folhear da proa

hoje para além do começar da “coxia”, continuou-se o folheamento do costado.

neste registo vemos o mestre zé rito a fixar a tábua de costado, apertada pelos grampos e pressionada por mãos amigas: havia-as da torreira, de estarreja … de amigos.

a construção de um moliceiro é uma celebração.

(torreira; 5 de agosto de 2016)

0 ahcravo_DSC_7689

 

3 de agosto (cont.)

apertando os grampos, o mestre zé rito força o arqueamento das tábuas que formam os costados do barco – é o folheamento de que já falei.

por cima desta serão colocados os “bordos”.

(torreira; 3 de agosto de 2016)

0 ahcravo_DSC_7426

os moliceiros têm vela (228)


ao meu funeral
(que não vai haver)

0 ahcravo_DSC_6832 regata moliceiros bico bw

o “Doroteia Verónica”

irão

alguns
para se despedirem

outros
por ser conveniente

muitos
para confirmarem que

o preto é uma cor
sempre na moda
emagrece e fica bem

e depois
roupa preta
quem a não tem?

EU!

0 ahcravo_DSC_6832 regata moliceiros bico

mais um moliceiro que teve de ser vendido e anda amputado pelos canais de aveiro

(murtosa; regata do bico; 2009)

postais da ria (182)


da amargura

0 ahcravo_fernando fonseca_DSC_7283 bw

o manuel fonseca (manuel tala) a cirandar berbigão

quando o conhecido
se torna desconhecido
é tempo de ser outro

os navios partem
sem saber de regresso
semeando o mar
de saudades amargas

fecham-se portas
outrora escancaradas
e não há janelas
por onde luz venha

é tempo de ser outro

0 ahcravo_fernando fonseca_DSC_7283

o colorido dos dias é agora outro

(torreira; julho; 2016)

os moliceiros têm vela (227)


NÃO DEIXEM MORRER OS MOLICEIROS!

00 ahcravo_DSC_4573 bw

momentos finais da regata da ria 2016.

os 3 primeiros estão definidos: em primeiro lugar o “Zé Rito”, em segundo o “A. Rendeiro” – por dentro – e em terceiro o “Marco Silva” – por fora.

até ao fim sempre juntos e com pouca diferença.

houve regata, sim, houve competição, sim. os moliceiros mostraram o que valem e como podem dar vida à ria.

NÃO DEIXEM MORRER OS MOLICEIROS!

00 ahcravo_DSC_4573

(regata da ria 2016)