mãos de mar (58)


volto já
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falo-te de um tempo
onde os dias se enroscam
preguiçosos e friorentos
sequiosos de sol
 
vai longe o verão
vão longe todos os verões
 
abraço-me e aqueço-me
sou a lágrima sustida nas cordas
dos cílios teimosos
 
amanhã quando acordar
ainda estarei constipado
nada que adoce a amargura
 
vou ver se roubo umas frases
bonitas e com elas fazer de conta
que sou o que gostava de ser
 
volto já
 
(torreira; o arribar do reçoeiro; 2016)

postais da ria (285)


como o mário
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o diamantino arruma as redes, vai começar a época do berbigão

caminhos sonhos
homens mulheres
desencantos
 
o cansaço chegou às raízes
 
um assento de pedra
sólido mesmo se frio
onde poisar-me
 
o cansaço chegou às raízes
 
por entre as malhas da rede
escoam-se palavras
e silêncios
 
quero dormir como o mário
 
(torreira; arrumar das rede; fim da época dos chocos; 2018)

postais da ria (284)


escrevi-me
 
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o falecido ti zé costeira regressava de mais uma pescaria, a remar à ré como numa #caçadeira

recuso-me a ser água
onde barcos a navegar
barco serei eu
 
sou as minhas palavras
sinto-me nelas são-me
 
recuso-me a ser vaso
onde flores plantadas
flor serei eu
 
dentro da garrafa de belo rótulo
o vinho azedou
enganado foi quem o comprou
 
recuso o carnaval
só em veneza
belas as máscaras
 
sou e assino
escrevi-me
 
(torreira; 2013)