agostinho
vejo-te e sei-te
agostinho
não há búzios
aqui
ouve-se o mar
em directo

o meu amigo agostinho canhoto e o bordão
(torreira; 2013)
agostinho
vejo-te e sei-te
agostinho
não há búzios
aqui
ouve-se o mar
em directo

o meu amigo agostinho canhoto e o bordão
(torreira; 2013)
o meu tempo

enraizadas na água
antiquíssimas
as vozes dos mortos
sem rosto
iluminam caminhos
gastos
de tanto os refazer
há um tempo sem
tempo
por dentro de todas
nele habito para ser

(torreira; regata do s. paio; 2011)

inexplicável
não me perguntes
porque escrevo
não me perguntes
porque estou vivo
em tudo
muito pouco
é explicável
inexplicáveis os dias
onde sou
e tudo acontece
nem só a fé
é mistério

o tino a reparar a cabrita
(torreira; 2013)
dos nós
desfazer nós
é trabalho sujo
de mãos outras
ditas limpas
desfazer nós
é desfazermo-nos
criá-los é fazermo-nos
nas mãos do pescador
a arte de fazer e desfazer
os nós das cordas
mas essa é outra arte

(torreira; 2010)
cacilda
escrevo devagar
o teu nome
em cada letra
bebo o mar
cacilda és uma gamelas
filha do ti chico
irmã do cipriano
cacilda
sal escamas cordas redes
norte areia
por vezes peixe
cacilda
o sorriso as palavras
poucas o corpo entregue
à faina
cacilda
és MULHER
do mar

(torreira; 2013)
haverá luz?

caminham e sabem
o que deixam
desconhecem o que
os espera
haverá carrascos inocentes?
será que o amor também mata?
neste momento não sei nada
um sopro de vento
o crocitar de um corvo
longe de tudo
perto do fim
um cardo seco
nunca será papoila
ceifada a seara

(figueira da foz; 2017)
tá-se bem

no moliceiro “Dos netos” com o meu amigo ti abílio
(que as minhas para contigo
só à vista terão fim)
há muitos anos
talvez não tantos
que o tempo engana
era assim que
terminavam
as cartas de amor
há muitos anos
no tempo dos meus pais
havia cartas e moradas
postais e telegramas
agora
sms’s e-mail’s
e amor
tipo
tá-se bem

no moliceiro “Dos netos” com o meu amigo ti abílio
(torreira; regata do s. paio; 2016)
não creio
não creio em deus
e isso traz-me uma
felicidade diversa
como não existe
não me trará
qualquer problema
menos um
com que me
preocupar

(torreira; 2012)
se
se judas traiu
cristo
todos conhecem
a história
quem sou eu para
me queixar

(alvor; 2018)
eis o poema
semeia as palavras
ao sabor do sentir
sê nelas
revê-as com a razão
encontra-lhes ritmos
os teus
refaz depois a sementeira
mas cuida de quem
a poderá colher
de nada servirá
o que semeares
se não for colhido
caminha pela areia
carregado e sereno
eis o poema

(torreira; 2012)