mensagem de ano novo
(aos donos da pátria dos moliceiros)

tão pouco fazem
depois de tanto terem dito
que chego a pensar que são
outros neles

o moliceiro “alfredo rebelo”
(murtosa, regata do bico; 2006)
mensagem de ano novo
(aos donos da pátria dos moliceiros)

tão pouco fazem
depois de tanto terem dito
que chego a pensar que são
outros neles

o moliceiro “alfredo rebelo”
(murtosa, regata do bico; 2006)
UM BOM ANO DE 2016
sobreviver

o moliceiro “dos netos” do ti abílio carteirista
de velas pandas os dias
seguiram o seu caminho
barcos ante nossos olhos
espanto de ainda por cá
resistir teimoso à chamada
espantoso o ser ainda
um moliceiro voga na ria
quero deixar-vos um ror deles
a encher-vos os olhos
nada mais vos peço que
sonheis com muita força
só assim os moliceiros hão-de
sobreviver

a bandeira da pátria dos moliceiros
(murtosa; regata do bico; 2007)
dos mestres
na precisão do gesto
a mão o instrumento
o mestre
saberes herdados
na escrita dos dias
trabalhados
vai-se o mestre
fica a obra
diziam
já pouca obra
enquanto nenhuma
digo
é este o meu tempo
(torreira; 2015)

mestre firmino tavares a trabalhar com o formão na construção do moliceiro marco silva
ser mestre, não é só o que hoje se diz dos que obtiveram numa universidade esse grau, é coisa muito mais antiga. de saberes de artes e ofícios, de aprendizagens de anos, de carreiras feitas sob a orientação de um “mestre”, até se atingir a qualidade e a perfeição de execução que aos mestres são exigíveis.
não é tradição dos países do sul da europa este tipo de formação e aquisição de saberes e títulos, que remontam à idade média, mas que se continuam a utilizar em muitos países europeus, começando na frança, o país mais a sul. as antigas escolas industriais preenchiam, entre nós, esta função e nelas se formavam operários especializados que recebiam ensinamentos práticos dos “mestres de oficina”.
enfim, toda uma conversa que haveria/haverá que fazer sobre este tema, mas o que agora e aqui importa é ouver “mestre” firmino tavares, último de uma família de mestres construtores navais de pardilhó, e aprender com ele o como foi, o prazer de ter sido e de ensinar a fazer, fazendo.
falar com o mestre são lições de vida que não me canso de receber. espero que depois de ouvir este breve apontamento, sem pretensões, fiquem mais ricos, como eu fiquei
quentes e …. (4)

modernidade e tradição, a convivência
comprei um papagaio
veio com um poleiro
e comida bastante
pu-lo na varanda
é o dono da terra

se quisermos é um cenário sempre possível
(torreira; regata da ria; 2010)
o insuportável peso da luz
o que nos separa é o essencial
isso só se torna evidente se
sobre o branco inscrevermos
o traço exacto das fronteiras
onde os desejos se dividem
fundamental reduzir o acessório
à sua verdadeira dimensão
dispensável
a luz tudo atravessa para se
fazer dia
(torreira; regata do s.paio; 2010)
estão ali
deitados
à babugem da maré
no lodo do seco
onde antes areia
água límpida
aguardam
o acordar
o até sempre
a regata
o apodrecimento
a pátria dos moliceiros
mátria não é
cada vez mais nem de carpideira
estatuto terá
estudemos pois
como é nossa tradição
os que vão morrer
a quem só falta o circo
e césar para saudar
(torreira- monte branco)
em 2009 surpreendi o sr. josé rebeço, meu vizinho dos tempos de criança, a descarregar uma barcada no cais do bico.
depois de muitos anos emigrado no canadá, de regresso definitivo à murtosa, resolveu reviver os seus tempos de juventude indo à “apanha do moliço”.
só que como já não há moliço, foi apanhar uma alga a que os pescadores chamam “cabelo de cão” e, sozinho, com um pequeno de motor fixo na beirada do moliceiro lá foi.
apanhei-o no acto da descarga. é esse registo que aqui fica.
uma memória breve do meu tio césar que tanto me marcou:
“dos moliceiros e do moliço, algumas regras e rituais
na ria de aveiro existem algumas ilhas, zonas que se mantêm secas durante todo o ano, dentre estas destacam-se três na zona mais norte: monte farinha, amoroso e testada.
a riqueza das ilhas residia no junco que crescia no seco e no moliço que crescia debaixo de água. na ilha de monte farinha chegou a haver gado, de que se destacava a criação de cavalos.
a ilha do amoroso tinha três sócios, um dos quais era meu tio avô, motivo pelo qual o acompanhei muitas vezes nas viagens que fazia à ilha, para reparações nos canais e manutenção da casa que aí existia e tinha um poço e uma figueira.
para poderem explorar o moliço das zonas submersas da ilha, os proprietários pagavam à capitania uma licença especial, mas só podia apanhar moliço na ilha quem tivesse autorização dos donos. não havia zonas exclusivas para cada barco, toda a zona submersa podia ser explorada.
ao domingo de manhã, depois da missa, vestindo o “fato de ver a deus”, os moliceiros iam a casa do meu tio, responsável pela contabilidade do amoroso, que os aguardava, à porta de casa, com uma garrafa de vinho doce e um cálice, enquanto nas mãos segurava um pequeno saco de pano.
cada moliceiro dirigia-se ao meu tio e dizia: sr. césar esta semana foram “tantas” barcadas de moliço, a “tanto” cada uma dá…. e punham o dinheiro no saco, bebiam um cálice e iam até casa.
era assim até à hora de almoço: encontros de homens de palavra.
foi com estes princípios que fui criado e se tenho, como todos temos, pais biológicos, tenho na ria uma outra família que me educou e de mim fez o homem que sou.”

são os mais pequenos mas também é deles a beleza se houvesse vento sobre as águas da ria voariam aves diversas belezas para os olhos de todos despesas para os bolsos dos poucos que ainda olhaste e viste? por detrás do moliceiro cada vez menos há homens antigos moliceiros homens com H do tamanho do mastro maior da vela mais alta homens que à ribalta dos média levam os que a eles migalhas dão que este não é um poema é uma promessa o vento que hoje não houve passará por aqui e levantará outras velas descobrindo como vamos e de que fibra são feitos os homens da ria
(murtosa; regata do bico; 2010)