não esquecerei

fazer a diferença
escrever é sentir
ler é sentir duas vezes e
esquecer
não escrevo
não leio
não sinto
não esquecerei

porque não há um só caminho
(regata do bico; 2012)
não esquecerei

fazer a diferença
escrever é sentir
ler é sentir duas vezes e
esquecer
não escrevo
não leio
não sinto
não esquecerei

porque não há um só caminho
(regata do bico; 2012)
jacques hammel, um francês no país dos moliceiros

jacques hamel, un français au pays des moliceiros

(regata do bico; 2016)
regata do bico 2016

” O Amador” a chegar ao cais do bico
participantes e posição à chegada:
classe A
1º – Zé Rito
2º – Marco Silva
3º – A. Rendeiro
4º – Dos Netos
5º – O Amador
6º – C.M. Murtosa
desistiram
S. Salvador
Manuel Silva
Bulhas
Classe B
(não entram para a competição)
Sermar
Ecomoliceiro
no final da regata foram entregues, pelos autarcas da murtosa, as medalhas de participação e as taças até ao 5º lugar.
foi anunciado de que havia prémio de participação e, como é hábito, deve haver também um de “posição à chegada”. os valores não foram divulgados, nem os moliceiros com quem falei o sabem.
alguma explicação há-de haver, e penso que de força maior, para que assim seja. eu só fui fotografar a regata.
aliás, havia muitas máquinas no cais do bico, vindas de muito longe, algumas até de lisboa. os moliceiros trazem às regatas um público muito especial: fotógrafos amadores.
espero que as organizações das regatas entendam, numa época em que se fala tanto de “turismo temático”, o potencial que eles representam.
só mais uma pequena nota, hoje no estaleiro do mestre zé rito, onde se está a construir o moliceiro do zé rebelo, um francês dizia-me:
– em frança só na bretanha se fazem barcos desta forma artesanal, mas não são para particulares, são para património.
mais uma para registo

o mestre felisberto caçoilo chega ao bico à proa d’ “O Amador”
(cais do bico; 7 de agosto, 2016)
o moliceiro “O Amador”, do mestre felisberto caçoilo, a chegar para a regata ainda pela manhã.
são imagens como esta que me levam a estar cedo e a passar muitas horas no recinto.
do tamanho

(relendo fernando pessoa
«Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.»)
olho à minha volta e vejo
que nesta terra
os que nela mandam
não têm sequer
o tamanho da altura que têm
como poderão ver?

(murtosa; regata do bico; 2013)
reinventar tudo

quando a nascente nega o rio
desaguar no deserto
não é assim tão estranho
há ainda flores por nascer
e um copo de água
não se nega a ninguém
hoje reinvento tudo

(murtosa; regata do bico; 2007)
a destruição da memória

em 2006 o “José António” ainda velejava na ria.
foi vendido para o turismo, amputado nos canais de aveiro.
assim se constrói a memória por cá.

(regata do bico, 2006)
ao meu funeral
(que não vai haver)

o “Doroteia Verónica”
irão
alguns
para se despedirem
outros
por ser conveniente
muitos
para confirmarem que
o preto é uma cor
sempre na moda
emagrece e fica bem
e depois
roupa preta
quem a não tem?
EU!

mais um moliceiro que teve de ser vendido e anda amputado pelos canais de aveiro
(murtosa; regata do bico; 2009)
o meu amigo

o moliceiro “Dos Netos” do ti abílio fonseca (carteirista)
o ti abílio carteirista
abraçou-me
e ao contrário
do que muitos pensam
pela alcunha
encheu-me a carteira

dos amigos espero a amizade
(regata do bico; 2009)
olhei e não vi

olhei e não vi o barco
vi o esqueleto
a madeira
olhei e não vi o estaleiro
vi a areia o sol em brasa
o mestre as ferramentas
o suor no rosto
olhei e não vi nada
não posso ver
olhei só
e lembrei-me de ter visto
o mestre há alguns anos
no estaleiro à beira porta
a fazer o mesmo
construir um moliceiro
mas à sombra de uma rede
a dele
quanto mais olho
menos quero ver
asneira sobre asneira
se constroem os dias
se destrói o sonho
se enterra a memória
não escrevo para que gostem
registo para que se interroguem
passo e não vejo mas olho
e não resisto
até estar de férias aqui
começa a ser complicado
ser cego dói ver dói mais
todo o absurdo aqui é real
(torreira; 18 de julho de 2016)

o mestre zé rito constrói mais um moliceiro, agora para o zé rebelo. ao lado ” ….O Museu-Estaleiro da Praia do Monte Branco, propriedade da Câmara Municipal da Murtosa,….”
a fotografia, a tradição, a memória e os interesses

a limpidez da memória no registo do momento
não há nada pior que um povo sem história, não é povo sequer. e o que é a história senão o somatório das memórias preservadas?
a fotografia é, desde que surgiu, mais um instrumento de construção da história, porque produtora de memória, com a relevância de ser um registo visual e de impacto.
desdenhar da fotografia é desdenhar da história e da memória. é desdenhar do povo e da sua cultura.
sujar o campo visual da reconstrução da memória é sujar a memória do registo intemporal, quem dera, do momento.
entendam agora porque sou contra o acompanhamento da “regata da ria” por praticantes de kite surf: sujam a memória, impedem o registo limpo de um tempo recuperado.
virá o tempo em que perguntarão porque se estragaram momentos tão belos. mas será tarde para impedir a ganância de alguns, a ignorância de outros, a falta de cultura de muitos e a indiferença da maioria.
poderíamos cantar aqui, assim: assim se desfaz portugal!

é tão frágil esta beleza perante a ignorância
(murtosa; regata do bico; 2012)