é tarde

belíssimas aves estas
conheço os dias
pela inclinação do sol
sobre os ombros
há um sabor a sal
nos lábios
quando te digo
é tarde
e nada se repete

a ria sorri de as saber
(torreira; regata das bateiras à vela; 2010)
é tarde

belíssimas aves estas
conheço os dias
pela inclinação do sol
sobre os ombros
há um sabor a sal
nos lábios
quando te digo
é tarde
e nada se repete

a ria sorri de as saber
(torreira; regata das bateiras à vela; 2010)

andam cisnes na ria
sou-me estranho
não me sei
despido do outro

como são diferentes estes dias
(murtosa; regata do bico; 2009)

é dura a solidão do pão
hoje saí à rua nu
enquanto caminhava
fui-me vestindo
com tudo o que via
cheguei a casa
com roupa nova

ajoelhado na lama um homem, ou uma mulher, busca na lama o sustento
(torreira; apanha de bivalves)
na vela o vento

com duas velas
ser ainda árvore
depois da tempestade
deixar que o vento siga
a sua eterna viagem
fundas as raízes na terra
escrevem o teu nome
sorris sem saber como
nem para quem
mais forte o sorriso
que o vento
na vela

que beleza é esta?
(torreira; regata da ria; 2011)
há janelas

como não sonhar com vistas assim?
há janelas com ambição
de terem portas
serem casa
sem saberem de paredes
alicerces chão
há janelas que se inventam

quisera da minha janela as visse
(torreira; regata s. paio; 2014)
boa viagem meu irmão

o “a. rendeiro” mostra-se
não consigo escrever
o teu sorriso
a lágrima de alegria
a espera foi dura
contados os dias
não consigo escrever
a tua voz
como se muitos anos
mais jovem
abraço-te com palavras
e lembro-me de um verão
juntos rente às raízes
nesta nova viagem
sê feliz meu irmão

o ti zé rebeço mostra o que vale
(murtosa; regata do bico; 2009)
a capa

o salvador e o falecido pai, ti domingos, cirandam berbigão
não lhes conheces
o rosto o nome
o quanto
à mesa saboreias
o que deles
olhas os registos
estudas contrastes
enquadramentos
outro repasto
para outro prazer
regressarás quando
só porque viste
saboreaste sentiste
mas não lhes sabes
o nome o rosto
a vida
não contas a estória
lês do livro a capa

as cores da ria não dizem tudo das suas gentes
(torreira; cirandar)
ser feliz aqui

caminho pelo olhar
e sonho
ignoro o por detrás
e fico-me
pela superfície vazia
onde tudo
pode ser o que eu
quiser
despedi da paisagem
o ruído
das gentes e seus dramas
esqueci
o indesejável saber da
injustiça
inventei ser feliz aqui

(torreira; porto de pesca)
a história não é estória

longe e perto
tenho o tamanho
que tenho
nem mais nem menos
saber o meu tamanho
é saber de mim
é essa a minha grandeza
não te temo por maior
que grande é o vendaval
e passa e morre e foi
digo-te que se quiser
terei o tamanho do tamanho
que tu tens e isso
faz de ti
alguém do meu tamanho
e de mim
um outro muito maior que tu
é com essa ilusão
de falsa grandeza
que do nosso prato
comes sentado à mesa
eu sei que vamos crescer
e papas na tua cabeça
comeremos mais uma vez
a história não é estória

é na meta que se vê o tamanho
(torreira; regata do s. paio; 2014)
parabéns amélia

o silêncio ouve-se
um alarme soou
no telemóvel
a minha memória
depende dele
mas
hoje não te telefono
sei que não atendes
não atenderás mais
escrevo-te
ouço-te vejo-te
resistes
com a energia
que só tu
“por favor
não me ponham de baixa”
não
não foste tu que desististe
tu nunca desististe de nada
foi a vida que desistiu de ti
parabéns amélia
quero que saibam
que hoje fazes anos

um postal para a amélia
(torreira)