os moliceiros têm vela (183)


a história não é estória

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longe e perto

tenho o tamanho
que tenho
nem mais nem menos

saber o meu tamanho
é saber de mim
é essa a minha grandeza

não te temo por maior
que grande é o vendaval
e passa e morre e foi

digo-te que se quiser
terei o tamanho do tamanho
que tu tens e isso

faz de ti
alguém do meu tamanho
e de mim

um outro muito maior que tu

é com essa ilusão
de falsa grandeza
que do nosso prato
comes sentado à mesa

eu sei que vamos crescer
e papas na tua cabeça
comeremos mais uma vez

a história não é estória

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é na meta que se vê o tamanho

(torreira; regata do s. paio; 2014)

postais da ria (133)


parabéns amélia

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o silêncio ouve-se

um alarme soou
no telemóvel
a minha memória
depende dele

mas
hoje não te telefono
sei que não atendes
não atenderás mais

escrevo-te
ouço-te vejo-te
resistes
com a energia
que só tu

“por favor
não me ponham de baixa”

não
não foste tu que desististe
tu nunca desististe de nada
foi a vida que desistiu de ti

parabéns amélia
quero que saibam
que hoje fazes anos

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um postal para a amélia

(torreira)

postais da ria (132)


márcia evaristo (arrais da ria)

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tem carta de arrais e é camarada do tio quim nas artes da ria.

neste registo está a safar as redes, enquanto no rosto exibe ainda a maquilhagem que os chocos deixam nos rostos de quem os apanha.

são assim as pescadoras da ria

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(ria de aveiro; torreira; 2011)

postais da ria (131)


não merecem

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a alar a solheira

fizeram-se homens
ainda crianças
na escola dos barcos

fazem de cabeça
as contas
das malhas das redes

nunca têm nos bolsos
quanto baste
para poderem dizer

vou de férias

partem para longe
vão de viagem
em busca do pão
que a ria nega
o comprador não dá

sei deles o suficiente
para vos dizer

não merecem

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não ser de oiro a pescaria

(torreira)

os moliceiros têm vela (180)


faz falta um canil na terra

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

quando todos ajudam

não me peçam
palavras doces
calma silêncio

não sei quantos
sou comigo
sinto que muitos

deixam-me falar
para me matarem
pela calada

esquecem-se
de que não é a mim
que matam

é à memória de um povo
que dizem seu
a que pertencem e os escolheu

faz falta um canil na terra

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

os HOMENS da terra são desta fibra

(murtosa; regata do bico; 2007)

postais da ria (130)


o meu amigo carlos padeiro

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começa-se cedo aqui

aulas acabadas
abertas portas e janelas
a ria de novo

aqui onde
de água o chão
e infinito o tecto
os tempos são
de marés e sol

os olhos prendem-se
nas redes
onde peixe mais tarde

não é este o lugar
da palavra
por isso do carlos

escuto o silêncio

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férias da escola é na ria

(torrreira; porto de abrigo; 2010)

os moliceiros têm vela (179)


o caminho é em frente

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aproveitar o vento

saber onde o laço
o  nó
as mãos dadas mais

lembrar o ontem
na escolha de hoje

limpar a courela de ervas
semear

tempo de fazer a rede
confiar no fio
na arte dos dedos ágeis

dar as mãos pelo futuro
saber escolher

amanhã não me posso
arrepender

crescemos porque damos
não porque recebemos

sopram ventos de mudança
partamos com eles

o caminho é em frente
sempre foi

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é esta a nossa gente

(murtosa; regata do bico; 2006)