sei lá

a rapar na lama para apanhar berbigão
mal me quer
bem me quer
sei lá

apenas a beleza
(torreira; junho; 2016)
sei lá

a rapar na lama para apanhar berbigão
mal me quer
bem me quer
sei lá

apenas a beleza
(torreira; junho; 2016)
estive aqui de férias

no verão de 2013, o cipriano carrega o saco na zorra
olhar sem sentir
olhar apenas sem pensar
estou aqui de férias
ilusão tudo o mais
para além de mim
quem cá está
cá ficará
eu partirei
sem saber se
o meu amanhã
é em toda a parte
o meu ontem
passou por aqui
o que fui é o ser
assim onde estiver
há mais mar que homens
há mais sonho que rebanhos
não preciso de pastor
basta-me o barco
que trago dentro de mim
vou comigo
para que sejam
e continuem
estive aqui de férias

cipriano brandão, em 2013 (o vício do mar)
(torreira; companha do marco; 2013)
como ficar calado?

a vida de pescador é dura, muito dura
no dia em que o furão vaidoso engorda a sua luxuosa reforma, com a entrada para presidente não executivo de um grande grupo bancário, nesse mesmo dia, hoje, um pescador da torreira de baixa por doença grave, diz-me na praia:
– estou de baixa cravo e recebo e … euros por mês (tenho vergonha de escrever o valor)
é esta sociedade a que eu me recuso a pertencer e a não denunciar.
só respeito os homens que se ajoelham perante deus, porque acreditam e eu não.
os mais, queria-os de pé, como se tivessem pernas dentro da cabeça.
isso sonho

o horácio, a manga da rede e o alador
(torreira; 2012)
das pequenas coisas e dos sinais

qualquer um de nós, quando nos dão a ler um contrato ou um outro documento, procura logo as letras pequenas – por vezes no fim da página, da última página de preferência. é que todos sabemos que aquelas letrinhas, tão bem arrumadinhas e às vezes difíceis de ler é que nos podem “tramar” um dia.
um exemplo diferente de detalhe errado, foi a publicação no meu blog e no face, da receita da caldeirada de enguias à murtoseira. para a ilustrar servi-me de uma foto tirada a uma caldeirada, feita nas margens da ria por um pescador da torreira, que as tinha apanhado à chincha com uns amigos. por azar a caldeirada feita por ele e, segundo me disse, já ganhadora de prémios, levava pimentos, que apareciam na fotografia. ao publicar o artigo, com a receita correcta, herdada dos meus tios avós, não reparei neste detalhe, mas houve logo, peritos em culinária que reclamaram, e bem, do facto de a receita da caldeirada à murtoseira não levar pimentos e eles aparecerem na fotografia. é assim, um pequeno detalhe e …. a fotografia está lá a eternizar o erro ou a correcção. (ver publicação : https://ahcravo.com/2013/02/25/caldeirada-de-enguias-a-murtoseira/)
dir-vos-ia ainda que em fotografia, como em história, só vê bem ao longe, quem vê bem ao perto.
posto isto, era exactamente das pequenas coisas que eu queria falar, para quase acabar esta série de crónicas sobre a regata da ria 2016.
do que vi e ouvi:
o kite surf esteve lá mas incomodou pouco
o kite surf durou pouco e não perturbou
o “Manuel Vieira” foi um dos dois barcos pintados de novo e não teve prémio de pintura
a câmara cedeu uma pequena carrinha para trazer de aveiro os moliceiros que não tinham transporte (mas, azar dos diabos, tinha aquele símbolo de transporte de deficientes)
os kite surfistas tiveram direito a uma camioneta das grandes
são tudo sinais que podem ser pequenos, mas que deixam marca.
o kite entrou na regata de mansinho, mas entrou. e de futuro como será? não vos preocupa? é um desporto radical que pode trazer muita gente à ria, é bem vindo mas …. “a cena é outra”.
porque é que no cartaz da regata da ria o kite surf aparece com letra pequena e na página do município da murtosa, não é destacado como a regata? será estranho, ou letras pequenas no cartaz bastavam?
o júri dos painéis, como foi salientado pelo presidente da câmara de aveiro, não percebia nada de pinturas, não eram artistas, eram autarcas. tudo bem. mas deviam saber quais os eram os barcos que foram pintados de novo e qual era o espírito que levou a que se fizesse a regata da ria: “pintar os painéis”. será que o ti manel valas que pintou de novo os painéis do barco e não recebeu prémio, ficou com vontade de voltar a repetir o investimento?
no meio disto tudo até dou de barato algumas das notas que fiz acima, a regata correu bem, toda a gente gostou, eu fiquei a conhecer melhor alguns “amigos”, gostei que amigos virtuais se tornassem reais e de ver muita gente a fotografar a regata.
para o ano, se cá estiver, espero que muito do que disse até este quase ponto final, seja dito por outros, por gente da terra e que aqui vive, não seja sequer necessário ou que tudo vá bem no reino da dinamarca.
marcou-me nestes dias uma frase: EU DOU-ME BEM COM ELES PORQUE FAÇO TUDO O QUE ELES MANDAM

também não sei

quando tiver vela será livre
(que coisa é o homem?
carlos drummond de andrade)
que coisa é o homem?
não sei carlos
sei que existe
e tu até disso
duvidavas
conhecer o homem?
tarefa vã me parece
por mais que viva
por mais que tente
entender o homem
uma surpresa
nem sempre boa
a destruir a bondade
que o homem devia ser
que coisa é o homem?
boa pergunta carlos
também não sei

encalhada e bela, nada mais digo dela

o “cristina e sara” do ti virgílio na regata da ria 2010
pintura geral

ao mestre construtor, que fez a reparação de manutenção do moliceiro, poderá também competir, dependendo do contratado, a pintura geral da embarcação.
neste registo o mestre zé rito, com o moliceiro virado, dá início à pintura exterior.
com esta foto termina a descrição sumária do “antes da regata”, amanhã é dia dela.
um dia que ficará tristemente para a história, com a associação do kite surf à regata da ria.
para além de lamentável em si mesmo, porque se intromete num evento de cariz tradicional, é mais grave ainda porque apadrinhado pela entidade organizadora da regata – o rancho folclórico camponeses da beira ria -, pelo município da murtosa – quer institucionalmente, quer através do presidente do rancho folclórico que é vereador da câmara – e, espante-se, porque aos moliceiros participantes da regata nada foi dito a este respeito.
mas nesta terra, como dizia um amigo meu, já nem me espanta ver um porco a andar de bicicleta.

(torreira; 30 de junho, 2016)
reparação e manutenção dos moliceiros

o mestre zé rito
depois de quase um ano a céu aberto, em seco e na água, a estrutura dos moliceiros sofre sempre deterioração.
por isso, para poderem participar na regata, é necessário proceder à revisão do estado geral da estrutura e proceder às operações de reparação necessárias.
na publicação anterior falei das pinturas, nesta é a vez de falar da arte de carpintaria naval.
a maior parte dos moliceiros que correm nas regatas e não pertencem a nenhum mestre construtor, vem à revisão e reparação, no estaleiro do mestre zé rito, na torreira.
neste registo vê-se o mestre a reparar o bordo de um moliceiro, mas a actividade nas semanas que precedem a regata da ria, a primeira de cada ano, é grande.
aproveito para relembrar, que se o dono de um moliceiro resolver pintar de novo o barco, muitas vezes precisa, e fazer as reparações necessárias para fazer as regatas em segurança, não lhe bastam os prémios de presença e competição -se ganhar algum – para cobrir todas as despesas.
não digo mais nada, porque o resto já imaginam, depois de tudo o que tenho vindo escrever a este respeito.

(torreira; 29 de junho de 2016)
as pinturas dos painéis e as decorações dos moliceiros

a beleza do moliceiro não reside somente na elegância da suas linhas, as pinturas dos painéis da proa e da ré, fazem de uma regata de moliceiros a única “galeria de pintura flutuante e em movimento” em todo o mundo.
há 25 anos que o pintor josé manuel oliveira e, nos últimos anos, o pai , necas lamarão, se dedicam à pintura de painéis e decorações dos moliceiros.
da invenção da pintura às legendas, são eles, raramente com a ajuda dos donos dos moliceiros, que fazem este reencontro com a tradição.
nem sempre é fácil conseguir juntar pai e filho no mesmo registo, não é fácil mas, desta vez , consegui.

(torreira; 27 de junho de 2016)
o homem e o Homem

nunca saberás a força
que os move
o amor nesta mãos
floresce vela
a ciência que ambiciona
tudo querer explicar
queda-se muda
perante estes homens
do amor que os cega
se valem os que nada mais vêem
que dinheiro fácil
de muito poucos
se refazem muitos e remoçam
a regata da ria 2016
começou
quisera eu algo mais
o homem é o maior
inimigo do Homem

(torreira; 27 junho de 2016)