o meu amigo rui


ao pescador da torreira

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reparar as redes da solheira

far-te-ás no tempo
desfazendo o que de ti
fizeram
afirmar-te-ás negando
que todo o fim
é negação de início

seres tu é tarefa
em que não podes estar só
a companhia surgirá quando
de velhas companhias livre fores

és mestre do incerto
senhor do saber esperar
por isso te digo

não
não tens o que mereces
nem ninguém te oferecerá
o teu futuro

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as horas que fazem o dia são poucas

(torreira, porto de abrigo dos pescadores)

crónicas da xávega (119)


prefiro a carne ao peixe

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a compnha espera

aqui longe sei que
é esta a gente que se ajoelha
perante um deus invisível
e não se curva diante do mar

a névoa cobriu tudo e adivinhar
o mar não é arte é loucura
nestes momentos oiço-os dizer

prefiro a carne ao peixe

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como se inverno em agosto

(torreira; companha do marco; 2014)

 

os moliceiros têm vela (91)


o insuportável peso da luz

assim vejo

assim vejo

o que nos separa é o essencial
isso só se torna evidente se
sobre o branco inscrevermos
o traço exacto das fronteiras
onde os desejos se dividem

fundamental reduzir o acessório
à sua verdadeira dimensão
dispensável

a luz tudo atravessa para se
fazer dia

assim te iludo

assim te iludo

(torreira; regata do s.paio; 2010)

crónicas da xávega (22)


no bordão, o peso da manga o ombro sustém

no bordão, o peso da manga o ombro sustém

traz no nome o início
a força de tudo poder ser
onde o mar e a areia
se encontram sem medos
numa fronteira breve
de espuma agonizante

em dias de haver mar
é ainda noite quando o arrais
e todos na praia à espera
ela mais um mais um mais
braços pernas corpo

conheço-lhe o riso
a linguagem franca das mulheres
que fazem vida do mar
a ternura com que fala dos filhos
a força com que compete com os homens
e vence o mais das vezes

cuida do dia
aurora
(torreira; companha do marco, 2014)