ser da terra

ser da terra
não é por nela
berço ter tido
ser da terra
porque herdada
sabe a monarquia
em tempo de república
seja a gente da terra
a fazer-te um deles
ou negar-te
sê e faz
hoje sou vela e vento

(torreira; regata da ria; 2010)

ser da terra

ser da terra
não é por nela
berço ter tido
ser da terra
porque herdada
sabe a monarquia
em tempo de república
seja a gente da terra
a fazer-te um deles
ou negar-te
sê e faz
hoje sou vela e vento

(torreira; regata da ria; 2010)

redeiros
arte minuciosa essa
como se de aranha
labor de mãos sábias
recolho nelas
o terem sido antes de mim
muito antes
as mãos dos meus maiores
mãos duras e simples
de trabalho
mãos transparentes
e límpidas
mãos que faço minhas
com orgulho
de ser deles mais um
não escrever eu
como eles rede faziam
é o que me dói

(torreira; 2015)
para a ana
os anos passaram
rolos de corda
de uma outra safra
lembro-me de ti
e do alfredo
a teus pés menino
quantos rolos ana
quantas safras
o alfredo a crescer
a cada ano
um homem grande
o teu filho
menino por dentro
a sorrir
hoje lembrei-me de ti ana

(torreira; 2010)
deixa-os descobrir
deixa que pensem
a higiene mental diária
só lhes faz bem
ignoram porém
que tu também
as pedras no caminho
há sempre pedras no caminho
não são exclusivo de ninguém
deixa que pensem
que só as há no teu
entre a ignorância
e a sabedoria
a fronteira é ténue
deixa-os descobrir

(torreira; saco de berbigão de 20 kg; 2009)
contigo
estendo-te a mão
para que te ergas
não para me afundar
contigo

(torreira; aparelhar das mangas 2016)
ouço-te cacilda
indizível o silêncio
verbalizá-lo é negá-lo
escrevo silêncio
silenciosamente
ouço-te cacilda

mulher do mar da torreira, a cacilda
(torreira; 2016; carregar o saco)
vencer os dias
vencer os dias
como se degraus
caminhar contra
caminhar sempre
a dúvida por vezes
o cansaço
desistir é tão fácil
o caminho vai longo
duras são as pedras
que mordem os pés
vencer os dias

(torreira; 2013)
aos homens e mulheres da ria

cirandar e escolher
existem homens
que fazem barcos
como se filhos
existem homens
que os encomendam
fazem neles vida
existem mulheres
camaradas dos homens
na faina dos barcos
homens e mulheres
sempre
mulheres e homens
os barcos só
não existiriam

(torreira; cirandar; 2016)
do escrever

esqueci-me do que
me esqueci
escrever o esquecido
é o como destas palavras
pergunto-me se o quê
também

(torreira; regata da ria; 2013)

judas intemporal
judas era um bom homem
tão bom
que traiu o amigo e o vendeu
na versão canónica suicidou-se
numa nova leitura com o prémio
comprou terras para cultivo
a segunda versão parece-me
mais razoável
mais do nosso tempo aqui
intemporal

(torreira; 2010)