será?

em boa terra
até a má semente
germina

(regata da ria; 2010)
será?

em boa terra
até a má semente
germina

(regata da ria; 2010)
desencontro

a escolha
a mão que deste
a mão que te deram
da ignorância e da sabedoria

o carlos arato safa as redes da solheira
há os que não sabem
e não sabem que não sabem
e os que não sabem
porque não querem saber
respeito tanto os primeiros
como desprezo os segundos
indiferente a estas palavras
o homem cumpre a sua tarefa diária
de subsistir onde cada dia
é mais difícil
olho tudo como se estivesse
sabendo que nunca mais
estarei como estive
essa é a minha sabedoria

o carlos arato safa as redes da solheira
(torreira; 2016)
haver mar

arribar
sê em cada dia
amigo do amigo
deixa que seja o tempo
esse outro amigo mais íntimo
a dizer-te quando acabou
o que parecia ter sido
não cuides do que poderia ser
lembra o que foi
procura outros rumos
noutras praias
há outra gente
com o mesmo destino
ser homem
e
haver mar

é tudo muito rápido e perigoso
(arribar; torreira; 2013)
a memória das imagens

o “A. Rendeiro” do ti zé rebeço a caminho da meta
são o que são
e não querem mais
amam o que amam
e fazem porque
une-nos o abraço o gesto
o sermos simples
como a palavra
que aprendemos sagrada
fiquem para outros os palcos
homens simples
outra arte não têm
senão a de saberem
que entre eles e o barco
só a morte ou falta de dinheiro
se pode interpor
vou com eles em busca
de um futuro possível
mensageiros que são
de uma tradição secular
e ter eu uma máquina
que dispara uma bala para muitos
desconhecida ou ignorada
a memória das imagens

quando três são um
(torreira; regata da ria; 2010)
vive

quando o longe se faz perto
e estás onde estiveste
quando o tempo se apaga
e és o que já foste
então a imagem é tua
mesmo se por outros olhos
vê e sente
ouve e sê
tudo está aqui
para ti
vive
(torreira)
o real no virtual

amanhã
quando falarem de mim
ou me esquecerem
como é normal
que fiquem estas imagens
de um tempo
de uma gente
de um modo de vida
a minha memória
será então
não um nome
mas o que ficou
espalhado
nas redes sociais
num mundo virtual
onde o real resiste
sem fronteiras
(torreira; 2016)
para o meu amigo
vitor cacheira

só vai ao mar
quem quer
só volta do mar
quem sabe
ou
consegue

(torreira; 2016)
urgente

ao longe
muito ao longe
a memória
algures um barco
dentro dele um homem
o homem-barco
urgente unir os que
são a memória perto
desse tempo longe
não muito ainda
dar-lhes as mãos
de que carecem
para que um dia
não se escreva
não se possa dizer
ao longe
muito ao longe
havia um barco
dentro dele um homem
um homem-barco
eu

(regata do s. paio; 2016)
arribarei

stalone e aurora caravela
virão os dias de mar
perguntarão por mim
as gaivotas os amigos
os que se habituaram a
não há mar que caiba
numa praia
nem memória que se esgote
num areal
tenho o tamanho que me deram
os que ao mar foram
vem deles este destino de onda
em busca de praia
arribarei onde

(torreira; 2013)