migalhas lixo

pombos tempo

pelo chão espalhados

memórias e

 

penso-me

não sei se ainda

porquê assim?

onde eu?

pesa-me ser

 

 

uma mão

uma ternura

um abraço

uma refeição quente

com amor dentro

 

os pombos

arrulham em bando

e eu

eu espero coisa nenhuma

apenas

isto de ser companheira

de mim

 

 
 

quando o mar trabalha na torreira_antónio serra


antónio serra

 

o tempo passou
como o norte pela areia
deixou-me aqui
seguiu viagem para outros destinos

plantado neste areal
sou mais uma árvore
raízes fundas cravadas no mar
arrancando cada dia
o alimento que me mantém vivo

o tempo passou
com ele passarei também
serei memória se o for
poeira no vento
que voará para mais além

 

(torreira, século XX)

A bateira Avieira, como membro da família das bateiras


 

Na Sociedade de Geografia de Lisboa, celebrou-se o tradicional Dia Nacional do Mar. O tema central das comemorações centrou-se na bateira Avieira. Foi um acontecimento relevante para o projecto de candidatura da cultura Avieira a património nacional imaterial e da Unesco, que decidimos publicar, evidenciando a bateira Avieira e uma comunicação sobre as bateiras nacionais, de autoria do Sr. Arquitecto Carlos Mateus de Carvalho.

Decidiu-se publicar esta Folha com esta comunicação, deixando para uma data posterior a publicação de outra importante comunicação sobre a bateira Avieira, feita neste Dia Nacional do Mar pelo Sr. Arquitecto Fernando Simões Dias, que tem dedicado os últimos anos a pesquisar sobre este valioso património cultural dos Avieiros.

Ao Sr. Arquitecto Carlos Mateus de Carvalho apresentamos os nossos agradecimentos por nos ter autorizado a publicação da sua comunicação.

O Gabinete de Coordenação

(Projecto de candidatura da cultura Avieira a património nacional imaterial e da Unesco)

Cultura Avieira – Um património, uma identidade

representações de bateiras

FOLHA INFORMATIVA 032012

SOBRE ALGUMAS EMBARCAÇÕES QUE NAVEGAVAM NA LAGUNA DE AVEIRO,

e não só…

FOLHA Nº03-2012_As Bateiras-genealogia, tipologias, distribuição[1]

quando o mar trabalha na torreira_ana amaral


ana amaral (mãe do alfredo)

 

são estes os dias
de sol farto que me fazem sorrir
os bois de mansos que são
sem medo acaricio
desta arte irmãos

é verão
estou viva o mar é meu
são minhas areias ondas água
barcos irão ao mar
haverá peixe na praia
comida em casa

todos os recantos das dunas
me contam histórias que só eu
ondas quebram na areia
lançando no vento nomes
que não esquecerão

são estes os dias
em que estou viva
é verão

 

(torreira; século XX)

falo dos palhaços


tá quase

antes

muito antes de

o silêncio e

 

depois

a surpresa

os momentos abertos à luz

olhos de criança

todos

 

erro esse dizer:

assistência

todos somos actores

no acto

 

liberta a criança que há em ti

deixa que ela dê a mão

à gargalhada cristalina

pequenina a teu lado

sente como enorme

 

posso?


 

maravilha esta música

nas janelas escrita pela chuva

 

quando a água cai do céu

fico assim parada no tempo

de sentir tudo

vontade de mãos para além do vidro

onde a terra as chama

desejo de sentir no corpo

a escrita da chuva

nas poças de água

os pés a correrem sem mim

 

mãe

quando chove

apetece-me abrir a porta

e ir dançar ao som desta música

de água que o céu deixa cair

posso?

quando o mar trabalha na torreira_antónio vasques


antónio vasques (falecido)

 

por mais que não queira
é para o mar que os meus olhos
correm

o fascínio das ondas
rebentando da areia
em gritos de agonia
sofrida de tanto mar andado

um barco que parte
outro que chega
as gentes
redes caixas cordas juntas
tudo isso se projecta
na tela imensa azul e verde

é este o meu mundo
feito de sol e vento
areia e mar

redes que remendo
sacos que fecho
à espera de os rasgar

 

(torreira, século XX)