o instante

o regresso
hoje é ser eu aqui
o momento é agora
o tempo todo
é coisa nenhuma
respiro o instante

(ria de aveiro; torreira)
o instante

o regresso
hoje é ser eu aqui
o momento é agora
o tempo todo
é coisa nenhuma
respiro o instante

(ria de aveiro; torreira)
aos senhores da terra

toda a beleza dos moliceiros
queria acreditar em vós
em tudo o dizeis
ouço-vos atento
mas de que serve ouvir-vos
se fazeis o oposto

o que é tem a ver o moliceiro com o logotipo da câmara da murtosa
(torreira; regata da ria; 2010)
panamá

o saco chega à praia
é verdade pá
não conheço nenhum pescador
com conta no
panamá
só encontro
uma resposta
trabalho duro
não dá
p’ra ter conta
no panamá

trará peixe? o resultado é sempre incerto
(torreira; companha do marco; 2009)
vida

nada é tudo
tudo é nada
muito é pouco
pouco é muito
vida

(torreira)
quem dera tu

os dias têm o tamanho
de sempre
mas entre o nascer e pôr
as horas de sol
nem sempre as mesmas
acolhem-me os hoje
onde os ontem
são promessas de amanhã
o caminho estreita-se
crescer é diminuírem os dias
sermos mais e menos
divago por entre memórias
existo ainda
por isso escrevo só por isso
não te escrevo
escrevo-me
os dias têm o tamanho
de sempre
quem dera eu também
quem dera tu

(murtosa; regata do bico, 2012)
dos euzinhos

que escrevam depois
o que foram
é coisa que também
me importa
escrever o passado
é trabalho
minucioso e de valia
mas fazer parte dele
porque se foi presente
é coisa que no café
à secretária a facturar
alguns sonham enquanto
flores e aves registam
para postais institucionais
lembro-me deles
quando me dói estar longe
com fome de mar
não são das gentes
da terra que dizem sua
são por si para si
euzinhos

(torreira; companha do marco; 2009)
ser quase nada

a ria por destino
ser o que passa sabendo
que ao passar
deixa o ter sido nada mais
escrever-me aqui
onde nem papel
é ser quase nada
onde por ilusão
tantos
julgam ser
quase tudo

henrique brandão e o filho, henrique também, arrumam as redes da solheira
(torreira; marina dos pescadores)

retrato do poeta enquanto jovem artista
no dia 21 de março, dia mundial da poesia, a livraria “lápis de memórias”, em coimbra, joão damasceno foi o poeta.
a sua poesia dita pelo irmão rui, acompanhado pelo sobrinho pedro e joão queirós (à viola), lembraram aos amigos o homem e o poeta e, a quem o não conhecia, a força da sua criatividade poética.
desses momentos aqui fica o registo possível e o abraço de um amigo
João Damasceno
Coimbra, 1955-2010.
Licenciado em História pela Universidade de Coimbra, iniciou a sua vida profissional como professor do ensino secundário em Angola. Voltou para Portugal onde deu aulas em várias localidades em todo o país, inclusivé nos Açores. A sua obra foi composta e impressa na tipografia da família, salvo o Retrato do Artista Quando Jovem aos Pés da Rainha Santa Isabel.
Obra publicada:
1983, Corpo Cru, Fenda;
1985, Alma-Fria, Sketches Policiários, Fenda;
1986, Cinco Suicídios, Fenda;
1989, Retrato do Artista Quando Jovem aos Pés da Rainha Santa Isabel, Fenda;
no prelo, Carta de Probabilidades de Erosão Celeste, Tipografia Damasceno.
“Poema de JOÃO DAMASCENO
NOVA CARTA AOS PSIQUIATRAS
Disseram que ia ser confortável, que ia ficar tranquilo
Deram-me os vossos comprimidos:
Quero masturbar-me e não posso
Onde está a minha solidão? Quero a minha solidão
Onde está a minha angústia? Quero a minha angústia
Onde está a minha dor? Quero a minha dor
Deram-me os vossos comprimidos:
Engordei e fiquei lustroso como um gato a quem tivessem cortado os tomates”
in ” Corpo Cru”