2 de agosto de 2016


bem hajas antónio brandão

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nuno cunha e o mestre zé rito fixam a bica do moliceiro

há datas que não são para esquecer, esta é uma delas.

o nuno cunha (setenove) e o mestre zé rito, fixavam a bica da proa do moliceiro. a construção progredia.

eram muitos, como hábito, os que assistiam àquilo a que chamei “celebração da ria”, entre eles alguns dos irmãos “brandão”.

o antónio brandão veio, de repente, ter comigo e disse-me:

– sr. cravo, tenho lá em casa uma caixa que a drª andreia me deu, com desenhos de moliceiros, e que lhe deve interessar.

pegou na bicicleta e, pouco tempo depois, trazia na mão uma caixa branca, de arquivo, que me deu para as mãos.

abri e vi que era a tese de licenciatura, de 1999, da minha amiga andreia leite, falecida aos falecida em 2008, aos 31 anos, de leucemia, e que muito me ajudou nas pesquisas sobre o naufrágio do nathalie. o documento tinha dado origem à tese de mestrado que viria a defender na universidade portucalense.

fiquei sem palavras e só fui capaz de dizer ao antónio:

– guarda-o é uma oferta que deve permanecer na família.

– sr. cravo, dou-lho como se o desse ao meu pai.

os olhos falaram pelos dois, não fui capaz de dizer que não e limitei-me às palavras mais simples:

– nunca me hei-de esquecer deste dia, antónio.

– e eu nunca me hei-de esquecer de si, sr. cravo.

escrevo o que se passou e volto a sentir tudo……..

a memória aqui fica e o testemunho de uma amizade que junta várias.

a construção do moliceiro proporcionou-me um dos momentos mais sentidos em toda a minha passagem pela torreira.

bem hajas antónio brandão

(torreira; 2 de agosto de 2016)

 

os moliceiros têm vela (234)


os contribuintes, os fotógrafos, a janela e as mãos sujas

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no final da regata dos moliceiros do s. paio, quando regressávamos de uma tarde de emoções fortes, vividas na ria, fomos recebidos por alguns contribuintes que nos disseram termos estragado o visionamento da regata, por andarmos de barco a acompanhá-la. também no face houve quem o escrevesse .

ora bem, o s. paio é a festa da ria e festeja-se na ria, eram muitos os barcos de recreio e de pescadores que, em dia de descanso, andavam na ria a acompanhar a regata. é assim, sempre foi assim. os barcos com fotógrafos eram poucos, quem dera fossem mais, porque mais dinheiro deixavam nos bolsos dos pescadores que os levavam. foi neles quem quis, ficou em terra quem assim o entendeu.

sujámos a imagem da regata? e nós no meio da ria, não tínhamos também barcos no nosso horizonte visual? é tudo uma questão de saber o quando e o como disparar. há quem tenha feito belíssimos trabalhos de terra.

mas, já agora que queriam ver tudo, não terão reparado que na regata não havia só moliceiros? não ouvi ninguém manifestar a sua opinião a esse respeito. é verdade, participaram na regata duas bateiras mercantelas – conforme informação de um tripulante de uma delas. será isso correcto quando na véspera houve uma regata de bateiras à vela com duas classes?

estranho é terem dito que estavam em competição, sem qualquer reparo ou impedimento da organização e, na página do município da murtosa – https://www.facebook.com/municipiodamurtosa/posts/1096215667123441 -, quando se vê a lista dos participantes, não estão lá mencionadas.

da minha janela, a bordo de um moliceiro, assisti a tudo.

afinal, competiram ou não? era interessante esclarecer essa situação.

quanto a mãos sujas, também eu as tenho de andar a trazer muita “porcaria” ao de cima, só que não estou agarrado a ela.

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(regata do s. paio, 2016, a bordo do moliceiro “Dos Netos)

construção de um moliceiro – 31 de agosto


era uma vez “Um sonho”

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foram muitos os que hoje vieram assistir ao bota-abaixo do moliceiro “Um sonho”, fotógrafos, amantes do moliceiro, a televisão, autoridades locais, curiosos, gente da terra e de fora…

o barco passou nas provas e regressou de uma breve viagem na ria, em que o mestre zé rito mostrou o que valiam: ele e o barco que acabara de fazer.

queria lembrar aqui que, em 2015 e 2016, 3 novos moliceiros tradicionais foram construídos:

2015

– o “Marco Silva”, feito pelo arrais/mestre marco silva, com o apoio do mestre firmino tavares, filho do mestre agostinho tavares de pardelhó.

2016

– o “Bulhas” feito pelo mestre antónio esteves, da escola do mestre henrique lavoura, também de pardelhó

– o “Um sonho”, feito pelo mestre zé rito, da escola da família raimundo, da murtosa.

são dois anos de luxo para a ria de aveiro. há muito que se não assistia a esta intensidade de construção de moliceiros.

convém lembrar que todos os custos com a construção, pinturas, palamenta e licenças, foram suportadas pelos proprietários, sem quaisquer apoios oficiais.

mais que um barco, o moliceiro, repito-o e repeti-lo-ei tantas vezes quantas as necessárias, é a mais forte expressão da cultura de um povo e um barco único no mundo – o mais belo de todos.

desculpem então se pergunto, e perguntarei tantas vezes quantas as necessárias, porque não é apoiada financeiramente a sua construção?

ao menos para compensar o tempo de antena na televisão.

mas, eu sou dos tais fotógrafos que só aparecem por aqui em certas alturas, nas férias, não têm nada a ver com a terra e só fazem perguntas estúpidas.

“tende-vos calmos que estou de partida.”

viver é ter coisas para fazer e eu tenho muitas para fazer ainda.

parabéns zé rito, boa sorte zé rebelo, obrigado amigos com quem reparti estas últimas semanas e me fizeram sentir mais um entre vós.

estou vivo e recomendo-me.

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(torreira; 31 de agosto de 2016)

(nota: as crónicas que têm acompanhado este diário, são da minha autoria e assumo por elas a inteira responsabilidade, independentemente de quem está nas fotografias ou é nelas identificado. as minhas opiniões são minhas e de mais ninguém)

construção de um moliceiro (16)


30 de agosto

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este registo foi feito ao princípio da manhã, ainda o moliceiro estava virado sobre bombordo. depois foi virado sobre estibordo e muitas foram as pequenas tarefas levadas a cabo durante o dia: calafetar, pintar, decorar, preparar o mastro, pintar falcas …. enfim uma infinidade de pequenas coisas que, quase sempre, tão portuguêsmente na
véspera, são o começo do fim da obra.

quis com este registo fixar os dois símbolos da murtosa: o moliceiro e a bicicleta. qual o murtoseiro que não se revê neles e, com eles; relembra histórias da sua vida?

foi o que aconteceu enquanto o mestre zé rito, o avelino e o setenove construíam o moliceiro. o josé oliveira e o pai, necas lamarão, pintavam as decorações. sim, eles foram os principais obreiros.

todos os dias nos encontrávamos ali, para o que desse e viesse. e, para além da mão que se ia dando quando necessário, vinha tanta coisa à conversa, foram tantas as histórias, as piadas, uma companhia que, ao mesmo tempo, se fazia aos que davam no duro.

enquanto o moliceiro era construído outras histórias se construíram.

vieram espanhóis, franceses, alemães, holandeses, portugueses emigrados, antigos moliceiros …. e todos ali estiveram como se em casa.

aconteça o que acontecer é impossível esquecer estes dias em que de manhã à tarde se conviveu com os mestres e a obra.

amanhã às 15 horas o “novo filho da ria” – frase do setenove – vai beijar a mãe. seremos muitos a assistir e a sentir que um pouco de nós vai com ele também.

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(torreira; 30 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (15)


29 de agosto

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depois de almoço chegámos ao estaleiro quase ao mesmo tempo, eu e o mestre zé rito. os dois e um moliceiro quase acabado.

com a rebarbadora o mestre lixava e depois afagava – interessante esta palavra – a madeira com a mão, para sentir a perfeição do trabalho efectuado.

palavras poucas, ouvia-se a rebarbadora, corria no ar uma poeira fina de madeira e o fundo do moliceiro adquiria um face nova.

havia ainda muito para fazer: calafetar, aparafusar, betumar, colocar pequenas cavilhas de madeira em pequenos furos…. tudo coisas miúdas, mas muitas.

ao longo da tarde foram chegando os amigos e o material que fazia falta. o mestre continuava sozinho, o seu trabalho enquanto a conversa o envolvia e amenizava a dureza da exposição ao sol.

na edição deste registo, mais que um momento queria transmitir um sentimento: o da solidão do mestre.

não sei se o consegui, mas depois de ter estado quase todo o dia no estaleiro só tinha uma frase para descrever o dia de hoje:

a solidão do mestre

espero que a sintam

NOTA – o bota- abaixo é pelas 15 horas, de quarta-feira dia 31

(torreira; 29 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (14)


28 de agosto

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o dia de fechar o fundo do moliceiro.

como se pode ver no registo de ontem, faltava colocar tábuas no fundo do moliceiro e fazer assim o fecho do fundo.

o olhar sabedor do mestre zé rito levou-o a escolher, do armazém, as tábuas de dimensões ideais para o efeito.

depois procedeu ao seu afeiçoamento de acordo com o método artesanal, que eu designo de “aproximações sucessivas”. é interessante ver o que separa os procedimentos científicos dos procedimentos artesanais.

sentado num banco/tronco ia espreitando pelas aberturas, ainda existentes no fundo, e por elas via os dois moliceiros que estavam ancorados na ria em frente ao estaleiro. eram janelas ideais para fotografar.

levantava-me de vez em quando e fazia uns registos.

a pouco e pouco fui ficando sem janelas, o fechar do fundo tapava-me a vista: um moliceiro novo enchia-me agora todo o campo visual. e isto também era novo.

neste registo o avelino ajuda a colocar a última tábua. quando ficou no sítio, levantei-me e saí.

muito trabalho há ainda por fazer. desde meter cavilhas, emassar, pintar ….. e voltar a virar de novo o barco para ser acabada a decoração, ser cheio de água e a madeira “fechar”.

amanhã também é dia, mas há cada vez menos dias.

(torreira; 28 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (13)


27 de agosto

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porque hoje é sábado e se avizinha o s. paio, muito mais gente se reuniu no estaleiro em torno do moliceiro em construção.

a meio da tarde, os mestres prosseguiam o trabalho quando, de repente, do meio dos amigos se ouve uma voz elevar-se:

– eh zé! com tanta gente aqui porque não aproveitas para virar o barco?

em pouco tempo parou a pintura e começaram os preparativos para virar o barco. esperava-se que, desta vez, viesse uma máquina para o fazer, mas os homens mandam mais.

seriam cerca da 17h30m quando o barco ficou virado – quase na vertical transversa – escorado a bombordo e estibordo, de forma a que se pudessem colocar as tábuas de fundo, que faltam para fechar totalmente o barco. não sei se as colocaram ainda hoje,,,, tudo é possível.

no final, comentava com um amigo: alguns dos que ajudaram, nunca imaginaram que o viriam a fazer de novo.

chamei o ti alfredo do táxi – 77 anos de vida repartidos entre a torreira e os estados unidos – e perguntei-lhe se contava, alguma vez voltar a fazer isto. a resposta, foi rápida e simples:

– foi a primeira vez que ajudei a virar um moliceiro novo.

para mim, pessoalmente, esta foto tem ainda outro valor, porque se houve um gorim que fez o registo, houve outro que ajudou a virar o barco, o meu primo domingos.

em torno de um moliceiro o que não pode acontecer!

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(torreira; 27 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (12)


26 de agosto

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em todos os processos há sempre alguém, por vezes muitos, cuja presença silenciosa e trabalho dedicado, torna a obra possível. ninguém fala deles, ninguém deles se lembra, mas sem eles não teria havido obra.

chama-se avelino, para que conste, mas poderia ter muitos nomes, tantos quantos os que não deixaram o nome ligado a qualquer obra.

pinta, serra, varre, ajuda em tudo e em tudo deixa um pouco de si. fala pouco, sorri por vezes, não pára quase nunca.

neste registo, está a pintar o leme que ajudou a fazer, deixando o círculo que o pintor preencherá com o símbolo do mestre construtor.

já pintou as falcas, irá dar bondex no interior do barco, fará o que o mestre lhe pedir. porque ambos se conhecem o suficiente para saberem até onde cada um pode ir.

o mestre zé rito continua a fazer peças de madeira, os pintores decoram bordaduras, painéis, dão ao moliceiro a vida que o torna mais belo ainda.

os que assistimos, e somos sempre muitos, fazemos o que podemos quando nos pedem ou sentimos que podemos ser úteis.

contam-se histórias de vidas e há em todos, excepto no mestre zé rito, um certo nervosismo quando se fala na data de conclusão da obra.

o mestre continua a sorrir, a trabalhar e, quarta-feira, o barco irá pela primeira vez beijar a ria. ele sabe-o e isso basta.

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(torreira; 26 de agosto de 2016)

cosntrução de um moliceiro (9)


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22 de agosto

começou a decoração do moliceiro.

para além da pintura, a característica identificadora do moliceiro é a decoração, nomeadamente a dos painéis da proa e da ré.

há mais de 25 anos que o pintor josé oliveira executa decorações de moliceiros, é ele que decora este moliceiro.

no registo de hoje pode ver-se já o desenho do painel da ré de bombordo, com alguma decoração pintada, enquanto josé oliveira inicia trabalho no painel de estibordo.

estamos em fase de acabamentos, o trabalho só voltará a envolver mais gente quando o barco tiver de ser voltado – meia querena – para serem colocadas as últimas tábuas de fundo.

até ao final, o novo moliceiro continuará a ser local de visitas diárias e de reunião de muitos.

(torreira; 22 de agosto, de 2016)