sei lá

a rapar na lama para apanhar berbigão
mal me quer
bem me quer
sei lá

apenas a beleza
(torreira; junho; 2016)
sei lá

a rapar na lama para apanhar berbigão
mal me quer
bem me quer
sei lá

apenas a beleza
(torreira; junho; 2016)
estive aqui de férias

no verão de 2013, o cipriano carrega o saco na zorra
olhar sem sentir
olhar apenas sem pensar
estou aqui de férias
ilusão tudo o mais
para além de mim
quem cá está
cá ficará
eu partirei
sem saber se
o meu amanhã
é em toda a parte
o meu ontem
passou por aqui
o que fui é o ser
assim onde estiver
há mais mar que homens
há mais sonho que rebanhos
não preciso de pastor
basta-me o barco
que trago dentro de mim
vou comigo
para que sejam
e continuem
estive aqui de férias

cipriano brandão, em 2013 (o vício do mar)
(torreira; companha do marco; 2013)
também não sei

quando tiver vela será livre
(que coisa é o homem?
carlos drummond de andrade)
que coisa é o homem?
não sei carlos
sei que existe
e tu até disso
duvidavas
conhecer o homem?
tarefa vã me parece
por mais que viva
por mais que tente
entender o homem
uma surpresa
nem sempre boa
a destruir a bondade
que o homem devia ser
que coisa é o homem?
boa pergunta carlos
também não sei

encalhada e bela, nada mais digo dela
coimbra, 28 de junho de 2016.
há exactamente 6 anos, o poeta joão damasceno partiu e deixou-nos as suas palavras, ou seja, ficou mesmo tendo partido.
deixou-nos um livro por editar ” CARTA DE PROBABILIDADES DE EROSÃO CELESTE”. o lançamento desse livro – composto e impresso pelo irmão rui damasceno, na tipografia da família – realizou-se hoje na casa da escrita, em coimbra.
este vídeo pretende apenas mostrar alguns excertos da homenagem.
a seu tempo publicarei a versão integral.
hoje houve uma geração que se chamou “joão damasceno” .
(a sessão foi aberta pelo curador da casa da escrita, antónio vilhena, e a apresentação do poeta feita por joão rasteiro. paulo archer falou sobre a obra e a vida do amigo joão. a poesia foi dita pelo irmão rui damasceno acompanhado pelo sobrinho pedro damasceno)
o homem e o Homem

nunca saberás a força
que os move
o amor nesta mãos
floresce vela
a ciência que ambiciona
tudo querer explicar
queda-se muda
perante estes homens
do amor que os cega
se valem os que nada mais vêem
que dinheiro fácil
de muito poucos
se refazem muitos e remoçam
a regata da ria 2016
começou
quisera eu algo mais
o homem é o maior
inimigo do Homem

(torreira; 27 junho de 2016)
hoje sou a ilusão de mim

perco-me de tanto
olhar
de ser tão pouco
quase
quase não ser
o que vejo
não sei se existe
como o vejo
ou se
como o imagino
apetecia-me ser nada
sobre coisa nenhuma
etéreo e efémero
hoje sou a ilusão de mim

(torreira; junho, 2016)
a escolha

no escolher dos amigos
a mesma precisão
com que eles o peixe

(torreira; companha do marco; 2010)
até amanhã ao sol

estou cansado
de tantas lutas
tantos anos
dou-me porque sim
porque sou
esta cabeça lucidamente
tonta de tanto sonho
continuo a não ser daqui
sem saber de onde sou
mas continuo
não precisam de contar
comigo eu conto
pararei quando
chegar o dia de parar
de vez de vez
até amanhã ao sol

(torreira; regata do s. paio; 2015)
envelope

há quem se sonhe carta
quisera-me eu envelope
e é tanto
se o conseguir

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)
só

2009, a muleta tradicional
sou
o que se foi fazendo
os princípios sempre
as pedras e os afagos também
não o outro o que gostariam
que apesar tudo
continuasse
a ser
o que me dói ser assim
o ter chegado ao que sou
eu por dentro e por fora de mim
escrevo-o com lágrimas
e raiva raiva raiva raiva
um dia vou acordar nunca
para ser eu
só

com o tempo muito se altera, as coisas e as pessoas. já lá vão 7 anos
(torreira; companha do marco; 2009)