
“ugalho de rer”
o sal do atlântico
o artesanal
onde a flor
é cristal

a mulher e o sal
(morraceira; 2016)

“ugalho de rer”
o sal do atlântico
o artesanal
onde a flor
é cristal

a mulher e o sal
(morraceira; 2016)
fui-me

cirandar
anoiteci-me aqui
é tarde meu amigo
é tarde
fui-me

cirandar
(torreira; 2016)

eis as mãos
eis a faina o labor
de haver mar

(torreira; 2016)
decisão

o que vêem os olhos de um pescador
disseram-lhe
corta o mal pela raiz
não hesitou
logo ali cortou os pés

por onde andará o peixe?
(torreira; 2012)
com o meu amigo salvador belo, de partida para largar a solheira
recuso ser de férias

o carregar da rede na zorra
é tempo de olhar
de sentir tudo
o regresso cada dia mais
improvável
é também ele nebuloso
fui
no tempo que passou
espectador atento e preocupado
recuso ser de férias
sou
a impossibilidade de ser mais
sendo menos
fica a memória a pairar na praia
longe

veio do mar, irá agora ser entendido e secar
(torreira; companha do marco; 2016)
para o ti abílio carteirista

a beleza da ria no corpo de um homem
já nem palavras tenho
ti abílio
o que lhe ofereço são
migalhas de mim
migalhas que guardo
apenas para os amigos

esplendor aos 80 anos
(torreira; regata do s. paio; 2016)

praia da claridade com a “boa viagem” ao fundo
procuro
apartamento para arrendar
figueira da foz
tenho muitos livros
imobiliárias amigos
pequenos anúncios
a eterna internet
motores de busca
buscam
apercebo-me de que só posso
aceder à gama média baixa
aposentado com
um metro e sessenta e cinco
a que podia aspirar?

eu vou conseguir
declaração

penso
logo resisto

(torreira; companha do marco; 2016)
o cigano

onde antes areia moliço
peixe luz alimento
nada mais que um charco
rodeado de lama
lama na ria e um cemitério
de bateiras
à espera da despedida
dos donos
a lama invade tudo
chapinha-se na lama
e dá-se-lhe bandeira doirada
na ilusão de pescar incautos
reconheço o fim do tempo
na maré vazia
a que nem os homens resistem
partem os que podem
ficam os que já não
ou porque também
o cigano desmonta a tenda
lava os pés e as mãos
na pouca água que resta
purifica-se
o cigano não muda a terra
muda de terra
é esse o seu destino
sonhar sonhar sonhar
nada é em vão

(torreira; porto de abrigo; 2016)
o meu país arde

9 horas da manhã e era noite
o meu país arde
de abandono
e não há lágrimas
que apaguem
erros de anos
o meu país arde
de ter sido um dia
à beira mar plantado
da beira mar arrancados
os filhos mal amados
o meu país arde
o meu país arderá
até nada mais restar
que a memória do verde
e de terem havido árvores
que se tornaram naus e barcos
o meu país arde
como arderam os olhos
dos que partiram
quem se lembrou deles então?

haverá beleza no inferno?
(torreira; 8 de agosto de 2016)