não esquecerei

fazer a diferença
escrever é sentir
ler é sentir duas vezes e
esquecer
não escrevo
não leio
não sinto
não esquecerei

porque não há um só caminho
(regata do bico; 2012)
não esquecerei

fazer a diferença
escrever é sentir
ler é sentir duas vezes e
esquecer
não escrevo
não leio
não sinto
não esquecerei

porque não há um só caminho
(regata do bico; 2012)

por entre as mãos
correm rios tristes
e são de mar
(torreira; 2016)
cirandando ideias

ciranda de um (era uma vez uma caixa de fruta…)
nada é tão certo
como o incerto

cirandar berbigão
(torreira; 2016)
hoje não penso

cirandar berbigão
recuso-me a pensar
recuso perguntar porquê
hoje não penso

o salvador belo e o irmão. pedro
(torreira; 2016)
mãos de dar

não
não me arrependo
de serem de dar as mãos
que me deram
nos cotos
dos braços que me levaram
outras mãos nasceram
para continuarem a dar
haverá amargura
por dentro dos dias agora
mas brilha nos olhos
o sol de sempre
o tempo
que nunca caberá nas mãos
é oferta impossível
usaram-no mal

(torreira; 2016)
nada é

não há máximas
que me tirem daqui
era o mínimo
que o ouviam dizer
calou-o a realidade
ignorada
o homem o trouxe
e o levou
o tempo calará
o mais

(torreira; 2016)
hoje

diz- se “enfeitar”
hoje morreu leonard cohen
hoje está frio
hoje ainda estou vivo
hoje a mãe fez 92 anos
hoje comi 4 castanhas
hoje é sexta-feira
hoje fui a coimbra
hoje comprei um frigorífico
hoje estive com amigos
hoje recebi uma tela uma prenda
hoje morreu leonard cohen
hoje é mais um dia
hoje está quase a acabar
hoje nasceu muita gente
hoje morreu muita gente
hoje foi mais um dia
hoje a beleza do sal
continua
hoje não se faz sal

diz-se “enfeitar”
(morraceira; 2016)
do medo

por entre os dedos
a corda dos dias
correu
agarrei o que pude
como soube
aprendi
tudo é nada
rente ao mar
o que foi continuará
a engrenagem
funciona
gorduroso o medo

(torreira; 2016)
falo do moliceiro

um barco
não tem raízes
é raiz
navega memórias
redesenha silêncios
inventa futuros
o homem criou o barco
e nele se enraizou
para fazer a viagem

(torreira; regata do s. paio; 2016)
fotografar moliceiros de dentro de um moliceiro é viver mais a fotografia
o presente

guardaram-lhe para o fim
o presente mais apreciado
esqueceram-se de lhe dizer
que era envenenado

(torreira; 2013)