das mãos

há dias assim, pena não serem todos
com as mãos digo o teu nome
caminho pelas palavras
por onde houver que
dou e tiro
sou as minhas mãos
lê-as para me saber
das mãos

há dias assim, pena não serem todos
com as mãos digo o teu nome
caminho pelas palavras
por onde houver que
dou e tiro
sou as minhas mãos
lê-as para me saber

rer
salgar o olhar
e dar-lhe o sabor
destes momentos

rer
(morraceira; 2016)
palavras amarradas

quase ternura
está cheio o baú
de palavras por dizer
o silêncio são palavras
amarradas
(torreira; 2014)
saberes de sal

mãe e filho
a mesma arte
saberes dados
herdados
cultivados
saberes de sal
(morraceira; 2016)
é tempo de moliceiros

abílio fonseca (carteirista)
há gestos que dão vida
há silêncios que matam
há palavras que assassinam
há homens que se revelam
a cada instante
de uns fica a memória de terem sido
de outros a de serem para sempre
para o ti abílio mais que a palavra
o gesto o abraço o estar aqui
mesmo se retirado
em 2016
o ti abílio salvou-me o ano
que outros mataram
para ele 2017 é pequeno
o tempo todo não chega
é tempo de moliceiros
queiram ou não
será sempre

80 anos de fibra
(regata do s. paio; 2016)
às gentes da xávega

haja peixe certo no tempo certo
que 2017 traga às redes
o peixe o carapau a sardinha
que negou em 2016
no tempo certo
que nem todo o tempo o é
isso aprendi
por isso o desejo
a todos os que da xávega
fazeis vida
que os que ainda não vos respeitam
aprendam em 2017
que quando deixardes de ser
a sua terra perderá
muito mais de si
do que uma simples arte de pesca
perderá o futuro
porque deixou morrer
o passado
(torreira; 2015)

pudessem as mãos
chorar
seriam delas as lágrimas
também
desabafo

mãos de fazer, mãos de dar, mãos de ser
melhor não escrever nada
estou engasgado de sentir
as palavras come-as
o tanto
tenho para mim
que o que fiz
sempre que o fiz
foi por bem
mesmo se errei
ao fazê-lo
por isso
me dói
calo calco
não mereço
não mereço
não mereço
escrevi
sal

achegar
sal do mar
sal da terra
sal da lágrima
sal do suor
sal
cloreto de sódio
todo

achegar
(achegar; 2016)

henrique pai e henrique filho, brandões (gamelas)
o tempo tudo julga
e a seu tempo
dirá de sua justiça
o tempo julga
à velocidade
da justiça portuguesa
em sede de recurso
se acaso houvesse
seria de mortos a demanda

os henriques brandão, pai e filho
(torreira; cirandar)