o meu amigo ricardo

como o barco do mar
o homem da criança
não é ricardo?
tudo muito rápido
onde ontem?

(torreira; 2016)
o maria de fátima a arribar e fácil é só para quem olha sem ver
o meu amigo ricardo

como o barco do mar
o homem da criança
não é ricardo?
tudo muito rápido
onde ontem?

(torreira; 2016)
o maria de fátima a arribar e fácil é só para quem olha sem ver
“moliceiro”

o ti abílio e o cunhado no canal de aveiro
queria escrever uma palavra
uma imagem
algo que ficasse para além de mim
do efémero hoje
do eterno ontem
do provável amanhã
que falasse de um povo
duma terra dum sentir
do ser
enchi folhas e folhas
de palavras de sonhos
esboços rascunhos
por mais que procurasse
apenas uma me encheu
de tudo e de todos
de tempo e de o não haver
a palavra a imagem o homem
sobrepunham-se numa só linha
em letras breves
“moliceiro”
(regata da ria; 2013)
insossos ou não

mãe e filho
os teus dias
terão o sabor que lhes deres
o sal
ou não
na tua mão
(morraceira; 2016)
do viver

o meu amigo ti zé formigo
há os que usam da memória
para serem o que já foram
ilusão de
eu uso a lucidez que me resta
para viver os dias
sem ilusões

o prazer da ria é ser nela todo
(torreira; s. paio; 2014)
o ti zé formigo ao leme da sua bateira, no permanente resistir às adversidades da vida

joão damasceno (foto cedida por rui damasceno)
coimbra, 28 de junho de 2016.
faziam exactamente 6 anos, que o poeta joão damasceno partiu e deixou-nos as suas palavras, ou seja, ficou mesmo tendo partido.
deixou-nos um livro por editar ” CARTA DE PROBABILIDADES DE EROSÃO CELESTE”. o lançamento desse livro – composto e impresso pelo irmão rui damasceno, na tipografia da família – realizou-se na casa da escrita, em coimbra.
este vídeo é a versão integral da apresentação
a 28 de junho de 2016 houve uma geração que se chamou “joão damasceno” .
a sessão foi aberta pelo curador da casa da escrita, antónio vilhena, e a apresentação do poeta feita por joão rasteiro. paulo archer falou sobre a obra e a vida do amigo joão. a poesia foi dita pelo irmão rui damasceno acompanhado pelo sobrinho pedro damasceno
Obra publicada:
1983, Corpo Cru, Fenda;
1985, Alma-Fria, Sketches Policiários, Fenda;
1986, Cinco Suicídios, Fenda;
1989, Retrato do Artista Quando Jovem aos Pés da Rainha Santa Isabel, Fenda;
2016, Carta de Probabilidades de Erosão Celeste, Tipografia Damasceno.
“Poema de JOÃO DAMASCENO
NOVA CARTA AOS PSIQUIATRAS
Disseram que ia ser confortável, que ia ficar tranquilo
Deram-me os vossos comprimidos:
Quero masturbar-me e não posso
Onde está a minha solidão? Quero a minha solidão
Onde está a minha angústia? Quero a minha angústia
Onde está a minha dor? Quero a minha dor
Deram-me os vossos comprimidos:
Engordei e fiquei lustroso como um gato a quem tivessem cortado os tomates”
in ” Corpo Cru”
para encomendar reedições dos livros esgotados, todos excepto o último, contactar a tipografia damasceno em coimbra- 239 822 210
em louvor do moliceiro

o mestre zé rito e o avelino
fazem os homens
o barco que os faz
e no fazerem-se
são mais que eles
queria dizer-te
que o teu tamanho
como escreveu pessoa
é o tamanho do teu sonho
e tu
oh homem pequeno
de trazer por casa
se não fores barco
não serás sonho
nem terás tamanho
tenham piedade de ti
que eu não

ilusão o serem os homens menores que o barco, porque iguais
(torreira; agosto de 2016)
onde a gulha?

faz-se o nó
emenda-se a corda
assim se unissem
os homens
como as mãos
no fazer
onde a agulha?
(torreira)
oração (2)

aos homens que vencem o mar
vencendo-se a si próprios
eu que sou um deles sem o ser
só lhes peço
que sejam em terra os mesmos
de pé altivos destemidos
de joelhos só perante
o senhor dos céus
em oração

(torreira; companha do marco; 2016)

tudo cabe na memória
até o esquecimento

(regata de bateiras à vela; s. paio, 2014)
na janela o rosto

dois olhares, um rosto
a viagem
não é estar
é ser
o rosto na janela

olhaste e não viste que te olhava
(no comboio entre coimbra e figueira, 12 jan 2017)