os moliceiros têm vela (251)


sou vela

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a bordo do moliceiro do ti abílio

abre a porta e sai
se fechada procura a janela
recusa as paredes
a prisão longe de tudo o que

ser a casa abrigo
é coisa que há muito muitos

ser a casa prisão
é coisa de que há muito muitos

vim de longe
não sei para onde vou
nem quando

mas uma coisa te digo
fechem-me a porta na cara
recusem-me à janela

mas não me tirem a rua
e a varanda sobre os dias

sou vela

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a bordo do moliceiro “DOS NETOS”

(torreira; regata do s. paio; 2016)

a beleza do sal (14)


 

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enfeitar

sim
salgaram tudo
terra casa afectos
a memória

não
com o ancestral intento
de preservar deixar para
não

sabia
demasiado sal
queima mata esteriliza
sabiam-no e deixaram

então digo
não há beleza no sal
nem nunca haverá
nos assassinos

a desconstrução da beleza
é criminosa

(morraceira; 2016)

postais da ria (202)


carta

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quando o barco é o camarada

sabes a quanto vendem os pescadores

o quilo de choco?
de linguado?
de berbigão?
de ameijoa?
de mexilhão?
de linguado?

sabes quantas horas de ria
para apanhar nunca se sabe quanto
embora se saiba a quanto?

quantas horas a safar redes?
quantos euros em gasolina?
quantas idas à fisiatria?
quantos dias de férias?
quanto ao fim do ano?

procura as respostas
encontrarás o labor
por detrás das bateiras adormecidas
e farás dos teus postais
um hino aos homens e às mulheres
que todos os dias
todas as semanas todo o ano
deixam na ria o corpo
pedaço a pedaço

se mal pagos são
pelo que do corpo lhes sai
sejas tu a cantá-los
quando pela madrugada
ou ao fim do dia
lhes fotografas os barcos

e
nos enches de espanto

(torreira; 2016)

os moliceiros têm vela (250)


o meu amigo ti zé rebeço

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o ti zé sempre

que idade tem um homem
quando é um homem de todas as idades?

o que pesa aos ombros de um homem
quando o que carrega é a própria vida?

um mastro de moliceiro
foi tronco de árvore
é hoje a raiz de uma gente
onde a bandeira de um povo
ergue a voz de ser ainda

amanhã ti zé
amanhã iremos sempre à ria
seremos todos os que já foram
todos os que hão-de ser
sabendo que aqui
o moliço foi rei
e os homens quando falavam
empenhavam a palavra

ainda os há ti zé
ainda os há
os de palavra aqui

(regata do bico; 2016)

o vídeo da regata

(todos os anos no primeiro fim de semana de agosto realiza-se na murtosa, no cais do bico, a festa do emigrante.

o ponto alto é no domingo, depois de almoço, a regata de moliceiros. sempre a festa maior da ria.

este vídeo, mais um registo para memória futura, foi feito com a câmara colocada na bica da proa do moliceiro “A. Rendeiro” do ti zé rebeço, moliceiro dos velhos tempos e que bebe na ria a vida de cada dia, aos 76 anos idade. é seu camarada, nos últimos anos, manuel antão.

procurei neste registo não fazer corte de tempos que “parecem” mortos, fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.

que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)

 

mãos de mar (13)


as mãos que não vês

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as mãos do agostinho

mãos vazias
esculpidas pelo cinzel
do tempo

mãos de não ter havido
herança basta
apelido sonante

mãos salgadas
de tanto mar tanto suor
tanto serem

mãos com voz
mãos nossas ignoradas
mãos silenciadas

mãos mãos mãos
quantas na mesa o peixe
a carne o pão o vinho

mãos com rosto
mãos mãos mãos

olha as mãos
que não vês

(torreira; 2013)

para o zeca


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amigo
serás sempre maior que o pensamento

tu que cantaste maio
e foi numa madrugada de abril
tu que foste a toupeira
e cantaste o sol e nos levaste a agarrá-lo

amigo
serás sempre maior que o pensamento

as tuas palavras a tua voz
são ainda tu aqui agora
sempre

duas sílabas um nome
um grito uma canção um protesto
uma revolta um princípio
uma alavanca um não desistir
aqui agora sempre

amigo
serás sempre maior que o pensamento

30 anos depois
não há depois
há o futuro todo

amigo
serás sempre maior que o pensamento

(abril, a 25)

a beleza do sal (12)


só há uma partida

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enfeitar

só há uma partida
a definitiva
o mais são abandonos
por raiva desilusão
amar demais para

amanhã vou para o sul
voltarei breve
enquanto regresso
possível for

deixo-vos com o sal
e o corpo de uma mulher
lugar onde terra e mar
se unem para dar
sabor à vida

(morraceira 2016)

postais da ria (200)


sou gorim

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e as raízes cresceram para a ria
atravessaram as conchas vazias
traiçoeiro chão
foram ao encontro das origens primordiais

olhei os rostos parados
poisados nas lápides de mármore branco
escutei as vozes antigas
e todas me disseram
és daqui gorim

erguidos os braços
as mãos saudavam-me de dentro das bateiras
do meio da ria
sabiam-me
em voz alta digo os nomes
chamo-os
reconheço neles a minha gente

voltei para partir?
não sei
só sei que estarei sempre aqui
como os que já cá não estão

os gorim

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(torreira; 11 de fev de 2017)

na bateira o henrique gamelas ciranda a parca apanha de berbigão. a vida não está fácil na ria