onde a gulha?

faz-se o nó
emenda-se a corda
assim se unissem
os homens
como as mãos
no fazer
onde a agulha?
(torreira)
onde a gulha?

faz-se o nó
emenda-se a corda
assim se unissem
os homens
como as mãos
no fazer
onde a agulha?
(torreira)
oração (2)

aos homens que vencem o mar
vencendo-se a si próprios
eu que sou um deles sem o ser
só lhes peço
que sejam em terra os mesmos
de pé altivos destemidos
de joelhos só perante
o senhor dos céus
em oração

(torreira; companha do marco; 2016)

tudo cabe na memória
até o esquecimento

(regata de bateiras à vela; s. paio, 2014)
na janela o rosto

dois olhares, um rosto
a viagem
não é estar
é ser
o rosto na janela

olhaste e não viste que te olhava
(no comboio entre coimbra e figueira, 12 jan 2017)
das mãos

há dias assim, pena não serem todos
com as mãos digo o teu nome
caminho pelas palavras
por onde houver que
dou e tiro
sou as minhas mãos
lê-as para me saber

rer
salgar o olhar
e dar-lhe o sabor
destes momentos

rer
(morraceira; 2016)
palavras amarradas

quase ternura
está cheio o baú
de palavras por dizer
o silêncio são palavras
amarradas
(torreira; 2014)
saberes de sal

mãe e filho
a mesma arte
saberes dados
herdados
cultivados
saberes de sal
(morraceira; 2016)
é tempo de moliceiros

abílio fonseca (carteirista)
há gestos que dão vida
há silêncios que matam
há palavras que assassinam
há homens que se revelam
a cada instante
de uns fica a memória de terem sido
de outros a de serem para sempre
para o ti abílio mais que a palavra
o gesto o abraço o estar aqui
mesmo se retirado
em 2016
o ti abílio salvou-me o ano
que outros mataram
para ele 2017 é pequeno
o tempo todo não chega
é tempo de moliceiros
queiram ou não
será sempre

80 anos de fibra
(regata do s. paio; 2016)
às gentes da xávega

haja peixe certo no tempo certo
que 2017 traga às redes
o peixe o carapau a sardinha
que negou em 2016
no tempo certo
que nem todo o tempo o é
isso aprendi
por isso o desejo
a todos os que da xávega
fazeis vida
que os que ainda não vos respeitam
aprendam em 2017
que quando deixardes de ser
a sua terra perderá
muito mais de si
do que uma simples arte de pesca
perderá o futuro
porque deixou morrer
o passado
(torreira; 2015)