meditação com moliceiros

se o passado
te matou o futuro
vive o presente
urgentemente

(torreira; s. paio; 2014)
meditação com moliceiros

se o passado
te matou o futuro
vive o presente
urgentemente

(torreira; s. paio; 2014)

amigo
serás sempre maior que o pensamento
tu que cantaste maio
e foi numa madrugada de abril
tu que foste a toupeira
e cantaste o sol e nos levaste a agarrá-lo
amigo
serás sempre maior que o pensamento
as tuas palavras a tua voz
são ainda tu aqui agora
sempre
duas sílabas um nome
um grito uma canção um protesto
uma revolta um princípio
uma alavanca um não desistir
aqui agora sempre
amigo
serás sempre maior que o pensamento
30 anos depois
não há depois
há o futuro todo
amigo
serás sempre maior que o pensamento
(abril, a 25)
só há uma partida

enfeitar
só há uma partida
a definitiva
o mais são abandonos
por raiva desilusão
amar demais para
amanhã vou para o sul
voltarei breve
enquanto regresso
possível for
deixo-vos com o sal
e o corpo de uma mulher
lugar onde terra e mar
se unem para dar
sabor à vida
(morraceira 2016)
sou gorim

e as raízes cresceram para a ria
atravessaram as conchas vazias
traiçoeiro chão
foram ao encontro das origens primordiais
olhei os rostos parados
poisados nas lápides de mármore branco
escutei as vozes antigas
e todas me disseram
és daqui gorim
erguidos os braços
as mãos saudavam-me de dentro das bateiras
do meio da ria
sabiam-me
em voz alta digo os nomes
chamo-os
reconheço neles a minha gente
voltei para partir?
não sei
só sei que estarei sempre aqui
como os que já cá não estão
os gorim

(torreira; 11 de fev de 2017)
na bateira o henrique gamelas ciranda a parca apanha de berbigão. a vida não está fácil na ria
o meu amigo ricardo

como o barco do mar
o homem da criança
não é ricardo?
tudo muito rápido
onde ontem?

(torreira; 2016)
o maria de fátima a arribar e fácil é só para quem olha sem ver
“moliceiro”

o ti abílio e o cunhado no canal de aveiro
queria escrever uma palavra
uma imagem
algo que ficasse para além de mim
do efémero hoje
do eterno ontem
do provável amanhã
que falasse de um povo
duma terra dum sentir
do ser
enchi folhas e folhas
de palavras de sonhos
esboços rascunhos
por mais que procurasse
apenas uma me encheu
de tudo e de todos
de tempo e de o não haver
a palavra a imagem o homem
sobrepunham-se numa só linha
em letras breves
“moliceiro”
(regata da ria; 2013)
insossos ou não

mãe e filho
os teus dias
terão o sabor que lhes deres
o sal
ou não
na tua mão
(morraceira; 2016)
do viver

o meu amigo ti zé formigo
há os que usam da memória
para serem o que já foram
ilusão de
eu uso a lucidez que me resta
para viver os dias
sem ilusões

o prazer da ria é ser nela todo
(torreira; s. paio; 2014)
o ti zé formigo ao leme da sua bateira, no permanente resistir às adversidades da vida

joão damasceno (foto cedida por rui damasceno)
coimbra, 28 de junho de 2016.
faziam exactamente 6 anos, que o poeta joão damasceno partiu e deixou-nos as suas palavras, ou seja, ficou mesmo tendo partido.
deixou-nos um livro por editar ” CARTA DE PROBABILIDADES DE EROSÃO CELESTE”. o lançamento desse livro – composto e impresso pelo irmão rui damasceno, na tipografia da família – realizou-se na casa da escrita, em coimbra.
este vídeo é a versão integral da apresentação
a 28 de junho de 2016 houve uma geração que se chamou “joão damasceno” .
a sessão foi aberta pelo curador da casa da escrita, antónio vilhena, e a apresentação do poeta feita por joão rasteiro. paulo archer falou sobre a obra e a vida do amigo joão. a poesia foi dita pelo irmão rui damasceno acompanhado pelo sobrinho pedro damasceno
Obra publicada:
1983, Corpo Cru, Fenda;
1985, Alma-Fria, Sketches Policiários, Fenda;
1986, Cinco Suicídios, Fenda;
1989, Retrato do Artista Quando Jovem aos Pés da Rainha Santa Isabel, Fenda;
2016, Carta de Probabilidades de Erosão Celeste, Tipografia Damasceno.
“Poema de JOÃO DAMASCENO
NOVA CARTA AOS PSIQUIATRAS
Disseram que ia ser confortável, que ia ficar tranquilo
Deram-me os vossos comprimidos:
Quero masturbar-me e não posso
Onde está a minha solidão? Quero a minha solidão
Onde está a minha angústia? Quero a minha angústia
Onde está a minha dor? Quero a minha dor
Deram-me os vossos comprimidos:
Engordei e fiquei lustroso como um gato a quem tivessem cortado os tomates”
in ” Corpo Cru”
para encomendar reedições dos livros esgotados, todos excepto o último, contactar a tipografia damasceno em coimbra- 239 822 210
em louvor do moliceiro

o mestre zé rito e o avelino
fazem os homens
o barco que os faz
e no fazerem-se
são mais que eles
queria dizer-te
que o teu tamanho
como escreveu pessoa
é o tamanho do teu sonho
e tu
oh homem pequeno
de trazer por casa
se não fores barco
não serás sonho
nem terás tamanho
tenham piedade de ti
que eu não

ilusão o serem os homens menores que o barco, porque iguais
(torreira; agosto de 2016)