abraçar o vazio

o agostinho trabalhito (canhoto) e o ti augusto
estar vivo é
por vezes
abraçar o vazio
(torreira; 2013)
abraçar o vazio

o agostinho trabalhito (canhoto) e o ti augusto
estar vivo é
por vezes
abraçar o vazio
(torreira; 2013)
mesmo se longe

o salvador belo e a ciranda de um
mais que os barcos
mais que a ria
mais que a beleza
que em tudo respira
os homens as mulheres
os que vivem os dias
sem saber de horas
férias feriados
que só sabem
de encomendas
de interdições
de marés
do que por vezes
não sabem por quanto
falo dos meus amigos
e do respeito
que por eles tenho
mesmo se longe

é duro, é muito duro
(torreira; cirandar)
um cravo para ti

mais do que a palavra
somos o gesto
mais do que o pensar
somos o fazer
mais do que únicos
somos solidários
não somos diferentes
somos assim
temos a liberdade de o ser
por isso lutámos
temos a liberdade de te dizer
é teu o que conquistámos
mesmo que o não sintas
porque não viveste o antes
mais do que a mão que fere
somos a mão que dá
nessa mão um cravo
um cravo para ti
hoje que é 25 de abril
e tu sem o sentires
és a razão de termos feito
de continuarmos a ser
mais do que a palavra
o gesto
dentro dele o teu cravo

(coimbra; 25 de abril de 2017)

será?

em boa terra
até a má semente
germina

(regata da ria; 2010)
desencontro

a escolha
a mão que deste
a mão que te deram
da ignorância e da sabedoria

o carlos arato safa as redes da solheira
há os que não sabem
e não sabem que não sabem
e os que não sabem
porque não querem saber
respeito tanto os primeiros
como desprezo os segundos
indiferente a estas palavras
o homem cumpre a sua tarefa diária
de subsistir onde cada dia
é mais difícil
olho tudo como se estivesse
sabendo que nunca mais
estarei como estive
essa é a minha sabedoria

o carlos arato safa as redes da solheira
(torreira; 2016)
haver mar

arribar
sê em cada dia
amigo do amigo
deixa que seja o tempo
esse outro amigo mais íntimo
a dizer-te quando acabou
o que parecia ter sido
não cuides do que poderia ser
lembra o que foi
procura outros rumos
noutras praias
há outra gente
com o mesmo destino
ser homem
e
haver mar

é tudo muito rápido e perigoso
(arribar; torreira; 2013)
a memória das imagens

o “A. Rendeiro” do ti zé rebeço a caminho da meta
são o que são
e não querem mais
amam o que amam
e fazem porque
une-nos o abraço o gesto
o sermos simples
como a palavra
que aprendemos sagrada
fiquem para outros os palcos
homens simples
outra arte não têm
senão a de saberem
que entre eles e o barco
só a morte ou falta de dinheiro
se pode interpor
vou com eles em busca
de um futuro possível
mensageiros que são
de uma tradição secular
e ter eu uma máquina
que dispara uma bala para muitos
desconhecida ou ignorada
a memória das imagens

quando três são um
(torreira; regata da ria; 2010)
vive

quando o longe se faz perto
e estás onde estiveste
quando o tempo se apaga
e és o que já foste
então a imagem é tua
mesmo se por outros olhos
vê e sente
ouve e sê
tudo está aqui
para ti
vive
(torreira)
o real no virtual

amanhã
quando falarem de mim
ou me esquecerem
como é normal
que fiquem estas imagens
de um tempo
de uma gente
de um modo de vida
a minha memória
será então
não um nome
mas o que ficou
espalhado
nas redes sociais
num mundo virtual
onde o real resiste
sem fronteiras
(torreira; 2016)