é urgente uma flor

depois de tudo ter ardido
é urgente uma flor
todos
todos merecem uma flor
é urgente reaprender
a florir
é urgente uma flor

(regata da ria; 2010)
é urgente uma flor

depois de tudo ter ardido
é urgente uma flor
todos
todos merecem uma flor
é urgente reaprender
a florir
é urgente uma flor

(regata da ria; 2010)

hoje é o primeiro dia
de luto
façamos dele
mais um dia de luta
pelo planeta
pelos povos
contra a estupidez cega
do lucro desenfreado
pelo cumprimento
do acordo de paris
hoje é o primeiro dia
de luto
mas não me basta que o seja
quero mais
hei-de querer sempre mais
um dia de luta

(regata da ria, 2010)
aos que morreram pela mão do fogo

aos que morreram pela mão do fogo
e foi atroz a sua morte
nada os trará de volta
mas que fique claro
que nada acontece só
por vontade da natureza
há mão do homem
a forçar o evitável
quando se lembrarem deles
lembrem-se do acordo de paris
da urgência de o cumprir
aos mortos
nada os trará de volta
aos vivos
que lhes sirva de lição
isto anda tudo ligado
escreveu o poeta há muito
mas podia escrevê-lo hoje

(regata da ria; 2009)
cuidado com os crocodilos

sábado 1 de julho
dentro de duas semanas
por esta hora
estaremos na ria
seremos de novo os cisnes
renascidos
aos que abatidos foram
a memória trá-los de volta
e honra-os
aos que mutilados
andam pelos canais de aveiro
a memória trá-los de volta
belos e inteiros
aos homens que continuam
por amor e com amor a tudo fazer
para que os moliceiros não morram
a memória dirá deles que heróis foram

um dia
porque poderá haver um dia
haverá nos olhos de alguns
lágrimas de crocodilo
fica para esses um aviso
não se aproximem da ria
porque podem
aparecer crocodilos a sério

(regata da ria; 2009)
conjugação imperfeita

conjugo o tempo
no pretérito perfeito
assassinaram-me
o futuro
incondicionalmente

(torreira; regata do s. paio; 2012)
fotografar é

ele existe
eu existo porque o vejo
e tu existes
porque te imagino a vê-lo
fotografar é
transmitir existência
construir memória
deixar rasto

(torreira; 2014)
meditolhando

quando os tractores também vão ao mar
dos inimigos
espera tudo

dos amigos
muito mais

(torreira; 2016)
poderia

ciranda de dois ( ou será de casal?)
poderia escrever
os nomes dos barcos
dos homens das mulheres
dos ganhos das perdas
das artes das artimanhas
da compra da venda
dos contratos doutros tratos
poderia
mas deixo para ti
esse caminho doloroso
que já percorri
também tu
deves aprender
como se vive por aqui
(torreira; cirandar; 2016)
do meu fotografar

no tribunal do tempo
a fotografia é testemunha
(torreira; 2016)
terra d’água

a espera sem vento
escreveis na água
o nome da terra
tendes nas mãos
o passado
prenhe de futuro
não o deixareis cair
sei e sinto
terra d’água
a vossa

já lá vão 10 anos ….
(regata do bico; 2007)