crónicas da xávega (207)


a memória

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o carregar do saco seco na zorra

a memória escreve-se
na areia e vai com o vento

não há malhas que a prendam
e tudo flui somando-se dias aos dias
assim sempre mesmo já quando

saber-lhes os nomes hoje ainda
é mistério que não entendo

aceito
como aceitarei
o não os saber

sei que o tempo
corre numa praia
por onde passo
e já tanto passei

olho tudo com a sensação
de que estive onde estive
sempre de corpo inteiro

assim como não estarei

(torreira; 2016)

apelo de uma árvore


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aqui onde me vês
cresci para as nuvens
e para a terra
sou mais que ninguém
d’aqui

não tenho pernas
tenho raízes fundas
que me prendem

não tenho corpo
tenho tronco que te abriga
não tenho braços nem dedos
tenho ramos e folhas
que te fazem sombra
e te protegem da chuva mansa

não falo
não reclamo
não grito

espero que tu
que tens pernas braços dedos
e voz sejas agora
o que eu para ti fui

o abrigo
a defesa
o amigo

aqui
na rua joaquim sottomayor
onde marcaram quatro irmãs
para serem abatidas

não os deixes

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(figueira da foz; 21 de julho, 2017)

os moliceiros têm vela (268)


frema

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palavra da terra
das gentes
do serem dela
cheios alguns

deixo a frema
para que falem dela
e vejam
no homem a frema
de ser
e só assim continuar

o que é a frema
pergunto-vos

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(torreira; regata do s. paio; 2016)

o filme continua com

“o tempo do moliço”

 

ao moliceiro desconhecido


” – ti zé, quando é que podemos gravar ?
– oh cravo, agora estou sozinho, mas pode ser segunda-feira pelas 6 da tarde”

foi assim e na segunda-feira, dia 12 de junho de 2017, nos juntámos na cozinha do ti zé rebeço e fizemos a gravação a que assistiram..

houve estórias para além de haver bateria que a memória é rara, as vivências muitas e o homem enorme.

memória de um tempo, de uma geração, de uma ria que já não volta mas importa celebrar e, porque não, reviver.

obrigado ti zé, há momentos em que vale a pena estar vivo, estes foram momentos em que valeu a pena.

 

 

(depois de ouvir a história de vida do ti zé rebeço)

 

 

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eis o homem
sejam nele todos quantos
antes muito antes
araram e ceifaram a ria

límpidas e puras as palavras
como então as águas
que sulcavam a bordo dos seus barcos

homens sem nome sem rosto
moliceiros desconhecidos
a quem a terra que adubaram
que a tantos deu de comer
ainda lembra mas não recorda

ao moliceiro desconhecido
na terra que o viu nascer
tudo mas tudo lhe é devido

tarda a hora de o fazer

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(o ti zé rebeço revive a descarga com moliço, no cais do bico)