os moliceiros têm vela (271)


és tu sou eu

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varanda sobre a ria

não estranhes que
te estranhem
se estranho és
estranho seria que
te não estranhassem

ser o outro
a forma de seres tu
num mundo
em que ser é ser eu
é seres estranho

abraça quem te abraça
e deixa passar quem
por ti estranhando passa

este mundo meu amigo
pode não ser o teu
mas tu serás sempre
o mundo do teu amigo

não é estranho
és tu sou eu

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foi um sonho, hoje é realidade

(murtosa; regata do bico; 2017)

 

crónicas da xávega (208)


arrancaram-lhe as raízes

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arrancaram-lhe as raízes
picaram-lhe com finas agulhas
os órgãos de sentir
fizeram-no de pedra bruta
in sen sí vel

chorou encostado a uma parede
era de dia e havia gente na rua

sabias que se pode gelar de verão?

não lhe arrancaram a memória
nunca o conseguirão

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(torreira; 2013)

os moliceiros têm vela (269)


 

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moliceiros na ria
(porque sei que há futuro)

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recuso o fausto da celebração
da memória

recuso a homenagem póstuma
aos assassinados

e digo

sim ti abílio
se eles quiserem
se eles nos deixarem
se eles nos apoiarem de facto

vamos ter sempre
sempre ti abílio

moliceiros na ria

 

(regata do bico; 2010)

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mãos de mar (24)


o caminhar

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arribam as mangas

o caminhar
tudo te desvendará
por vezes será doloroso

segue sempre pelo lado do sol
rente à cal tudo se desenha

saberás então
se apenas sombra o homem

no pão a sardinha escorre
também a verdade no tempo

(torreira)

como caem as árvores


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1. ouvi o barulho da serra. levantei-me. vesti-me. peguei na máquina. aproximei-me e comecei a fotografar. que não podia. que tinha de sair. que me tiravam a máquina. semblantes carregados. rostos fechados. cercas encerradas de imediato.

afinal, só estavam a abater 3 árvores. só isso. porquê o medo? porquê? o que é que estava a fazer?

2. voltei mais tarde. de longe. equipado. fica o registo

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3.

a ordem

o homem
a mão
a serra

a ferida
o esticão
a morte

as árvores
dormem nas nuvens
os homens
quando acordarão?