crónicas da xávega (477)


para o meu amigo agostinho trabalhito

apanhei rente ao mar  
três seixos rolados
de cores diferentes
como diferente é tudo

entrechocando-se na mão
produzem um som áspero
um som de memória perdida

encostados ao ouvido
nada dizem
são simples pedras
não búzios

também eu
trago no corpo o mar
o mar que ninguém ouve

(torreira; 2016)

“hoje vou falar de um António …” de teresa alvarez


foto de teresa alvarez
Hoje vou falar de um António, não do Santo, que não estou para aí virada .

Nunca me sentei à frente dele a saborear um café.
Não sei como ri ou como chora.
Não sei como caminha
ou se gosta de se sentar nos bancos de jardim.

Sei lhe a voz  e sei que está sempre rodeado de livros. Não é um homem é uma biblioteca.
Tem um ofício peculiar...
entra dentro dos livros e dá a voz e a alma a páginas e páginas e as pessoas ficam a ouvi lo e a vê lo ....e a pensar no amor  absoluto que o  "homem da boina" tem pelas palavras.
E também é poeta
   "sou a pedra no vidro
     o prego no sapato" 

...como cidadã livre e irreverente eu te condecoro,  António José Cravo, com a medalha de mérito pelo serviço público prestado generosamente aos "loucos" que escrevem coisas e aos que têm o vício de lê las.
                     nada menos

                                                            (teresa alvarez)
o próprio

postais da minha coimbra_20


sobre coimbra
os olhos deitam-se
e sonham o terem sido
do outro lado da rua
tem havido sempre um outro lado da rua
o sol ilumina as casas
aquece-as
as mãos buscam-no
quase o agarram
de tão próximas

do outro lado de muito mais ruas
sombrios os becos
onde se morde a fome
nas sobras de ontem
de outrem

frio medo revolta
medo revolta frio
revolta frio medo
por dentro

há sol do outro lado da rua
roubaram-no

(coimbra; r. visconde da luz)

postais da minha coimbra_19


sobre coimbra
os olhos deitam-se
e sonham o terem sido
deles direi à margem

inventaram os centros comerciais
a céu aberto
são senhores do marketing
reinam onde o dinheiro escassa

sabem onde e vão
pais do povo a quem estendem
a mão

contrafeito
numa terra onde a marca
marca quem a tem
o prazer de enganar a imagem
de desconstruir os símbolos
não enganam é mesmo feito em portugal
aqui onde quase tudo é feito na china
com marca

sorriem sempre
sorriem muito

de onde vêm para onde vão
é coisa sua
agora
estão aqui e inventam o sonho
a quem só isso resta

sigam-nos

postais da minha coimbra_18


sobre coimbra
os olhos deitam-se
e sonham o terem sido
praça do comércio
beco com saída


fui muito mais do que serei
o tempo é-me agora adverso
o tempo e os homens que nele
consomem o pouco que de mim
resta

as glórias de ter sido
os feitos secretos de um quotidiano digno
os beijos dados e pedidos
os filhos os amigos os amores
as memórias as lutas
sou cada dia mais cada dia menos

esperava mais
esperava o que sempre esperei
como eu tantos
o respeito a dignidade a consideração
um fim de acordo comigo
com o que fui
o que fiz
o que sou
o que merecemos

agora
olho tudo com medo de que mais um
me diga não és
porque não pode dizer não foste
amargam-me o futuro escasso
porque não me podem roubar a vida vivida

tenho-os em pouca conta
que pouco valem no serem assim abjectos
não deixarei porém que me calem
mesmo que agora já não tenha as forças que tive
os meus murmúrios serão o grito da revolta
CANALHAS

estou num beco
com saída