cresço no tempo de onde vou lentamente partindo
(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2010)
para o meu amigo agostinho trabalhito
apanhei rente ao mar três seixos rolados de cores diferentes como diferente é tudo entrechocando-se na mão produzem um som áspero um som de memória perdida encostados ao ouvido nada dizem são simples pedras não búzios também eu trago no corpo o mar o mar que ninguém ouve
(torreira; 2016)

Hoje vou falar de um António, não do Santo, que não estou para aí virada .
Nunca me sentei à frente dele a saborear um café.
Não sei como ri ou como chora.
Não sei como caminha
ou se gosta de se sentar nos bancos de jardim.
Sei lhe a voz e sei que está sempre rodeado de livros. Não é um homem é uma biblioteca.
Tem um ofício peculiar...
entra dentro dos livros e dá a voz e a alma a páginas e páginas e as pessoas ficam a ouvi lo e a vê lo ....e a pensar no amor absoluto que o "homem da boina" tem pelas palavras.
E também é poeta
"sou a pedra no vidro
o prego no sapato"
...como cidadã livre e irreverente eu te condecoro, António José Cravo, com a medalha de mérito pelo serviço público prestado generosamente aos "loucos" que escrevem coisas e aos que têm o vício de lê las.
nada menos
(teresa alvarez)
sobre coimbra os olhos deitam-se e sonham o terem sido
do outro lado da rua tem havido sempre um outro lado da rua o sol ilumina as casas aquece-as as mãos buscam-no quase o agarram de tão próximas do outro lado de muito mais ruas sombrios os becos onde se morde a fome nas sobras de ontem de outrem frio medo revolta medo revolta frio revolta frio medo por dentro há sol do outro lado da rua roubaram-no
(coimbra; r. visconde da luz)
sobre coimbra os olhos deitam-se e sonham o terem sido
deles direi à margem inventaram os centros comerciais a céu aberto são senhores do marketing reinam onde o dinheiro escassa sabem onde e vão pais do povo a quem estendem a mão contrafeito numa terra onde a marca marca quem a tem o prazer de enganar a imagem de desconstruir os símbolos não enganam é mesmo feito em portugal aqui onde quase tudo é feito na china com marca sorriem sempre sorriem muito de onde vêm para onde vão é coisa sua agora estão aqui e inventam o sonho a quem só isso resta sigam-nos
sobre coimbra os olhos deitam-se e sonham o terem sido
beco com saída fui muito mais do que serei o tempo é-me agora adverso o tempo e os homens que nele consomem o pouco que de mim resta as glórias de ter sido os feitos secretos de um quotidiano digno os beijos dados e pedidos os filhos os amigos os amores as memórias as lutas sou cada dia mais cada dia menos esperava mais esperava o que sempre esperei como eu tantos o respeito a dignidade a consideração um fim de acordo comigo com o que fui o que fiz o que sou o que merecemos agora olho tudo com medo de que mais um me diga não és porque não pode dizer não foste amargam-me o futuro escasso porque não me podem roubar a vida vivida tenho-os em pouca conta que pouco valem no serem assim abjectos não deixarei porém que me calem mesmo que agora já não tenha as forças que tive os meus murmúrios serão o grito da revolta CANALHAS estou num beco com saída