mãos (5)

mãos (5)


(des)crença
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patrícia relvas (lavoisier)

 
acredito no produto
das mãos na obra
talvez memória um dia
 
o reencontro com
perdura enquanto
apenas enquanto
 
a eternidade o regresso
são hoje e agora
nada existe para além
 
um amigo trouxe-te
sem o saber
a este dia onde ainda
 
as tuas palavras
o teu rosto
as nossas conversas
foram de novo
 
nisso acreditávamos
acredito ainda
 
(lavoisier; cae; 2019)

crónicas da xávega (303)


 

alguns são meus amigos
0 ahcravo_Imagem 249 mira companha sra dos aflitos s

o carregar do saco 

 
não são capa de revista
não têm nome
são apenas um número
na estatística
 
sabe-se deles quando
à mesa peixe fresco
da costa fala do verão
 
são em fim de vida
o que no início alguns
voltam por ser pouca
a paga por tantos anos
parcas as reformas
 
deles só sei que
 
não são capa de revista
não têm nome
são apenas um número
na estatística
 
alguns são meus amigos
 
(praia de mira; 2009)

retratos de rua


0 ahcravo_Imagem 018 o fitas garreiada fig foz 2008

santo
santo santo santo
o dia em que acordo
e ainda me levanto
gosto muito de santa
apolónia e de são bento
embora entre campanhã
e oriente prefira a última
santo santo santo
é o depósito atestado
autonomia para duas
semanas duas santas
santo santo santo
és tu que me leste
sem te ter pedido tanto
(figueira da foz; 2008; “o fitas”)

 

os moliceiros têm vela (354)

os moliceiros têm vela (354)


o vazio
0 ahcrav_ DSC_6285 regata moliceiros shbw
 
nas linhas dos cadernos
de duas linhas
aprendíamos a fragilidade
das letras
 
o equilíbrio precário
da escrita da vida
aprisionadas
 
escrevo há muito em
folhas lisas
simulando o plasma
onde agora
 
o vazio começa
no vazio
0 ahcravo_DSC_6285 regata moliceiros sh
 
(torreira; regata da ria; 2009)
escuta

escuta


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luis ferreira na peça “monólogo do diabo” de antónio tavares

escuta o vento
no fremir das folhas
das árvores nuas
 
entre luz e sombra
a fronteira é ténue
 
muitos sucumbem
ao peso da luz
e caem na sombra
 
nas árvores nuas
assobia o vento
por entre os ramos
 
ténue a fronteira
entre sombra e luz
 
(figueira da foz; 06 abril 2019)