postais da ria (132)


márcia evaristo (arrais da ria)

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tem carta de arrais e é camarada do tio quim nas artes da ria.

neste registo está a safar as redes, enquanto no rosto exibe ainda a maquilhagem que os chocos deixam nos rostos de quem os apanha.

são assim as pescadoras da ria

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(ria de aveiro; torreira; 2011)

postais da ria (131)


não merecem

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a alar a solheira

fizeram-se homens
ainda crianças
na escola dos barcos

fazem de cabeça
as contas
das malhas das redes

nunca têm nos bolsos
quanto baste
para poderem dizer

vou de férias

partem para longe
vão de viagem
em busca do pão
que a ria nega
o comprador não dá

sei deles o suficiente
para vos dizer

não merecem

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não ser de oiro a pescaria

(torreira)

postais da ria (130)


o meu amigo carlos padeiro

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começa-se cedo aqui

aulas acabadas
abertas portas e janelas
a ria de novo

aqui onde
de água o chão
e infinito o tecto
os tempos são
de marés e sol

os olhos prendem-se
nas redes
onde peixe mais tarde

não é este o lugar
da palavra
por isso do carlos

escuto o silêncio

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férias da escola é na ria

(torrreira; porto de abrigo; 2010)

os moliceiros têm vela (179)


o caminho é em frente

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aproveitar o vento

saber onde o laço
o  nó
as mãos dadas mais

lembrar o ontem
na escolha de hoje

limpar a courela de ervas
semear

tempo de fazer a rede
confiar no fio
na arte dos dedos ágeis

dar as mãos pelo futuro
saber escolher

amanhã não me posso
arrepender

crescemos porque damos
não porque recebemos

sopram ventos de mudança
partamos com eles

o caminho é em frente
sempre foi

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é esta a nossa gente

(murtosa; regata do bico; 2006)

postais da ria (128)


cheio só de mim

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um a um os “andares” vão entrando na bateira

braço a braço
os dias
por entre os dedos
foram

olhos por dentro
dos olhos
estas memórias

queria a rede cheia
que de sonhos fora
para um dia te legar

mas nem isso

vou-me como vim
nu de tudo
cheio só de mim

ahcravo_DSC_3476_solheira_alar com o salvador chalana

nem sempre a rede salva o salvador, é assim a vida de pescador

(torreira; alar da solheira; 2010)

os moliceiros têm vela (177)


homens da ria

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eles podem ser o futuro, assim os deixem e apoiem

há moliceiros na ria
porque de paixão
estes rostos cheios

retesados corpos
na ânsia da vela
mais alto o mastro

voga o sonho
dentro deles

num amanhã
onde não estarei
serão eles os mestres
senhores dos ventos

homens da ria

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zé pedro miranda, joão magina e rui rodrigues (russo)

(murtosa; regata do bico; 2014)

postais da ria (127)


regressarão

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depois do alar da solheira regressa-se, no balde o pescado (2010)

come-se à mesa
o que da ria
horas porfiadas
marés redes

conta-se o tempo
o ganho parco
no fundo do balde

parte-se porque
é fraco o ganho
para tanto
para tão pouco

vão-se os homens
e são senhores do mar
escravos da ria
terra sua de ser água

até quando pergunto
e só o silêncio
onde vozes por vezes
jamais o gesto

regressarão

ahcravo_DSC_3502_solheira_alar com o salvador chalana

a olhar o balde, o salvador faz as contas, e é tão pouco (2010)

(torreira; solheira; 2010)