paguem aos moliceiros

no tempo em que os animais
falavam
os burros andavam de orelhas
murchas
agora que os homens falam
não há quem ature os burros
paguem aos moliceiros

(torreira; regata do s. paio; 2014)
paguem aos moliceiros

no tempo em que os animais
falavam
os burros andavam de orelhas
murchas
agora que os homens falam
não há quem ature os burros
paguem aos moliceiros

(torreira; regata do s. paio; 2014)
amigos

a equipa do reçoeiro, da companha do marco, em 2010, quando a manga chegava e era necessário pedir reforço:
da esquerda para a direita
– joão rodinhas (agora no bacalhau)
– ana amaral
– alfredo amaral
– miguel biatolra
– nicole (falecido)
a memória é isto, saber-lhes os nomes e vê-los aqui, mesmo quando já não.

(torreira; companha do marco; 2010)
vagueio-me

sento-me em mim
e olho tudo como se
pela última vez
a minha voz
é não a ter
e escrevo porque
não tenho nada
de novo para dizer
vagueio-me

(torreira; porto de abrigo)
pagai

falo dos moliceiros
e digo os homens
que do mesmo nome
arrolados
(linguagem de moliceiro)
os que não pagando
deles se servem
quais senhores feudais
dos tempos modernos
vassalagem quereis?
pagai-a então
que de palavra honrada
devíeis ser
homens

(torreira; regata da ria; 2010)
a arraisa albina

escolhe o peixe manel
olha o tamanho sarapol
e tu agostinho
lá porque és canhoto
não te enganes
albina
depois de escolher
há que vender
responsabilidade
da arraisa

(torreira; companha do marco; 2010)
o meu amigo raul

como se houvera um caminho
na ria e ele o soubesse
é em direcção ao mar sabemo-lo
parca paga para tão pouco
mesmo se muito
não sustenta família
é no alto mar
que fazem vida os homens daqui
a ria é cada dia mais
para quem espera partir
ou regressou
acabado o tempo
de partir de novo
o caminho raul
é para a barra

(torreira)
tende vergonha na cara

há moliceiros na ria
à espera que lhes paguem
até quando?
não acham que já chega?
como diziam os antigos:
tende vergonha na cara!

(torreira; regata da ria; 2010)

no dia 30 de abril, de 2016, às 10h da manhã, na rampa do porto de abrigo dos pescadores da torreira, todos os que puderam assistiram ao bota-abaixo do M. Fátima.
alguns, como eu, tiveram ainda o prazer de fazer uma pequena viagem na ria, sonhando já com a a primeira ida ao mar.
o M. Fátima ficará na história por 2 razões principais, que outras haverá:
– é primeiro barco de mar a ser construído na torreira
– é o primeiro barco de mar construído pelo arrais e não, como todos os outros, encomendado a um mestre carpinteiro naval
gostava de não o escrever, mas o M. Fátima depois de ser o primeiro em tudo o que atrás disse, pode também, e infelizmente,
ser o último barco de mar a ser construído. quem que a história me venha a contradizer.
por tudo isto estão de parabéns o arrais marco silva, albina amador, jorge carriço, ricardo silva e josé oliveira, cujos nomes ficarão para sempre associados à construção e pintura deste barco.
haja peixe e bons preços, que bons mestres e boa companha aqui temos, para que o M. Fátima trabalhe por muitos anos.

e vai ao mar
enquanto o novo M. Fátima espera que as burocracias se completem para ir ao mar, aqui fica uma recordação de 2012, do barco agora em descanso.
brava gente esta, a dos homens da xávega. saibam respeitá-los e dar-lhes condições de trabalho.

momentos de mar
(torreira; companha do marco; 2012)
a magia da ria

há imagens que nos pregam
ao chão
que nos prendem os olhos
as cores as gentes o céu
o estar ali
deslumbrado com tanto
a ria por vezes é pura magia
como senti no momento em que
não fui capaz de para de disparar
enquanto que pensava
por mais que faça
nunca nada será mais belo
que o estar aqui
assim sintas a ria um dia

o henrique e o padas safam as redes da solheira, o léo, na bateira do pai assiste
(torreira; o safar das redes)