postais da ria (353)


o gesto
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torreira;zé de gaia; 2017

suspenso o gesto
como o tempo
confinado
adiado
suspenso o tempo
o gesto
amanhã porque
haverá um amanhã
onde sempre nem todos
mas os que por enquanto
esperarei o momento
de suspensão da suspensão
ser ainda depois de
até que
porque nunca suspenso
o tempo
silencioso continua
o gesto será ou não meu
mas será sempre

crónicas da xávega (343)


o poema
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(torreira; 2010)

colhe de madrugada
as mais límpidas palavras
orvalhadas de sonho
no côncavo das mãos
sente-as crescer
sente-as
depois ergue os braços
entrega-as
à brisa da manhã
não importa se as conheces
sequer se as amas
liberta-as
serão elas o poema
que nunca escreveste
os moliceiros têm vela (397)

os moliceiros têm vela (397)


emergência
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torreira; s. paio; 2014

 
as palavras
o silêncio
estar aqui
não basta
 
caminho como se
sou como que
 
tu ficas sempre
do outro lado
 
o tempo não se repete
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torreira; s. paio; 2014

 

crónicas da xávega (342)


uma rede incerta
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torreira; 2012

 
morde por dentro
a incerteza dos dias
 
por sobre o vazio uma rede
muitas redes
alguns nós
tanto eu
 
morde por dentro
a incerteza dos dias
 
há ainda o mar e um
navio ao longe
ao longe
parte
 
nunca ser barco
foi tão urgente
 
por sobre o vazio
uma rede
incerta
 
os moliceiros têm vela (396)

os moliceiros têm vela (396)


aos que partiram
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torreira; s. paio; 2011

 
conversam comigo
como no tempo em que fomos
 
recusei vê-los
recusarei sempre
quando já não
 
preservo-lhes a vida
dentro da memória que sou
 
converso com eles mesmo se
debaixo de terra diante de mim
lembro-os lembrando-nos
 
sou os que foram comigo
serão sempre até que eu
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torreira; s. paio; 2011