
aqui portugal, voltámos


escrevo porque

por vezes
só os barcos arribam
à mesma praia
não escrevo
para que me oiças
escrevo porque sinto

(torreira; 2013)
sorriem muito

mãos de mar, mãos de luta
não tomam posição
sentam-se à mesa do mas
trocam ideias discutem
não concluem nunca
gostam muito do talvez
evitam nãos e sins
são espectadores
que querem palco
de bandeja sem suor
à janela dos dias
esperam um vaso de flores
no peitoril dos olhos
de tão subviventes
conseguem
ser sobreviventes
sorriem muito
(torreira; 2015)
o meu país

o carregar do saco
o meu país é habitado
mora nas minhas fotos
nas minhas palavras
o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago
o meu país dói-me
e se luto faço
é porque luto
todos os dias
o meu país
é habitado
ainda
o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago
até quando?
(praia da leirosa; 2017)
há mão humana

o meu país arde
a galiza arde
há mão humana
do início ao fim
há mão humana
nas alterações climáticas
há mão humana
no abandono
no desleixo
no é meu
aqui mando eu
há mão humana
no crime
há mão humana
nos salvamentos
no heroísmo
na impotência
no espanto
no que resta nas cinzas
onde descobrem nome
há mão humana
há mão humana
há mão humana
há mão humana
não conheço outra
(torreira; 2014)
destino de pescador

à memória de cipriano brandão (gamelas)
não têm nome
são pescadores
só o mar a areia e o norte
os conhecem
quando por feitos
direito tiveram
a nome e o publicaram
a terra esqueceu-os
partem sempre um dia
humanos que são
perdem-se no nevoeiro
que sobre eles lançam
aqui estão todos
os que foram
os que ainda são
os de amanhã
não têm nome
não sei se o terão

à memória de cipriano brandão (gamelas)
(torreira; 2016)
da mãe e do filho

entre o filho da mãe
e a mãe do filho
é tudo uma questão
de gerações
se insulto o filho
é a mãe nele
no filho da mãe
(torreira; 2016)
meninas os dedos

desfizeram os laços
cortaram os nós
por entre os dedos
a corda
dentro da mão
cansada amargurada
vozes de crianças
desfizeram os laços
cortaram os nós
permanece a corda
meninas os dedos
(praia da leirosa; 2017)
procura

procura nas minhas palavras
não a verdade absoluta
mas a verdade sentida e clara
sem mistificações nem falsidades
sou o que digo
embora possam de mim dizer
o que por bem entenderem
se o leitor fosse o escritor
o que escreveria?
(torreira)
a arte da fuga

no pais das maravilhas
leio muito vivo tudo
depois queixo-me
mas a culpa é minha
ainda não aprendi
a arte da fuga
(arribar; torreira; 2016)