é fácil

o carregar do saco
se te perguntarem por mim
diz que não estou
é verdade
se perguntarem porquê
diz que não sabes
é meia verdade
se te fizerem mais perguntas
diz que tens de fazer
é fácil

o carregar do saco
(torreira; 2010)
é fácil

o carregar do saco
se te perguntarem por mim
diz que não estou
é verdade
se perguntarem porquê
diz que não sabes
é meia verdade
se te fizerem mais perguntas
diz que tens de fazer
é fácil

o carregar do saco
(torreira; 2010)
espero-me

no refazer dos dias
não se refaz o sonho
a rede que fiz
afoguei-me nela
do mar trouxe pedras
quando outros peixe
fui pescador sem o ser
corri muito para nada
cansado de tanto
vou ser eu onde
espero-me mais além
(torreira; 2016)
o tamanho dos homens

os homens têm o tamanho
inverso dos seus medos
se o medo do mar
os faz grandes
o medo dos homens
os faz pequenos
fui ao mar em terra
e vi -lhes o tamanho

(torreira; 2016)

escrevo porque

por vezes
só os barcos arribam
à mesma praia
não escrevo
para que me oiças
escrevo porque sinto

(torreira; 2013)
sorriem muito

mãos de mar, mãos de luta
não tomam posição
sentam-se à mesa do mas
trocam ideias discutem
não concluem nunca
gostam muito do talvez
evitam nãos e sins
são espectadores
que querem palco
de bandeja sem suor
à janela dos dias
esperam um vaso de flores
no peitoril dos olhos
de tão subviventes
conseguem
ser sobreviventes
sorriem muito
(torreira; 2015)
o meu país

o carregar do saco
o meu país é habitado
mora nas minhas fotos
nas minhas palavras
o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago
o meu país dói-me
e se luto faço
é porque luto
todos os dias
o meu país
é habitado
ainda
o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago
até quando?
(praia da leirosa; 2017)
há mão humana

o meu país arde
a galiza arde
há mão humana
do início ao fim
há mão humana
nas alterações climáticas
há mão humana
no abandono
no desleixo
no é meu
aqui mando eu
há mão humana
no crime
há mão humana
nos salvamentos
no heroísmo
na impotência
no espanto
no que resta nas cinzas
onde descobrem nome
há mão humana
há mão humana
há mão humana
há mão humana
não conheço outra
(torreira; 2014)
destino de pescador

à memória de cipriano brandão (gamelas)
não têm nome
são pescadores
só o mar a areia e o norte
os conhecem
quando por feitos
direito tiveram
a nome e o publicaram
a terra esqueceu-os
partem sempre um dia
humanos que são
perdem-se no nevoeiro
que sobre eles lançam
aqui estão todos
os que foram
os que ainda são
os de amanhã
não têm nome
não sei se o terão

à memória de cipriano brandão (gamelas)
(torreira; 2016)
da mãe e do filho

entre o filho da mãe
e a mãe do filho
é tudo uma questão
de gerações
se insulto o filho
é a mãe nele
no filho da mãe
(torreira; 2016)