quem safa redes, safa a vida?

depois de largar e alar
safar peixe se algum
há que limpar, safar e arrumar
as redes
quantas horas?
quanto de ganho?
(torreira; 2017)
a dança das redes (1)
quem safa redes, safa a vida ?
(torreira; 2017)
aos que morreram pela mão do fogo (2)
é urgente uma flor

depois de tudo ter ardido
é urgente uma flor
todos
todos merecem uma flor
é urgente reaprender
a florir
é urgente uma flor

(regata da ria; 2010)
aos que morreram pela mão do fogo (1)

hoje é o primeiro dia
de luto
façamos dele
mais um dia de luta
pelo planeta
pelos povos
contra a estupidez cega
do lucro desenfreado
pelo cumprimento
do acordo de paris
hoje é o primeiro dia
de luto
mas não me basta que o seja
quero mais
hei-de querer sempre mais
um dia de luta

(regata da ria, 2010)
os moliceiros têm vela (265)
aos que morreram pela mão do fogo

aos que morreram pela mão do fogo
e foi atroz a sua morte
nada os trará de volta
mas que fique claro
que nada acontece só
por vontade da natureza
há mão do homem
a forçar o evitável
quando se lembrarem deles
lembrem-se do acordo de paris
da urgência de o cumprir
aos mortos
nada os trará de volta
aos vivos
que lhes sirva de lição
isto anda tudo ligado
escreveu o poeta há muito
mas podia escrevê-lo hoje

(regata da ria; 2009)
os moliceiros tradicionais fazem passeios tradicionais
uma das formas de sobrevivência dos moliceiros tradicionais é a realização de passeios na ria de aveiro.
na RIA, não nos canais de aveiro.
a motor, por uma questão de segurança, mas com mastro e vela enrolada, conhecer a ria pela boca de quem a conhece é a proposta.
neste registo o percurso foi entre a torreira e o cais do bico, mas muitas e diversas são as propostas de percurso.
passear num moliceiro tradicional é um prazer e uma forma de apoiar a sua continuação.
OS MOLICEIROS TRADICIONAIS FAZEM PASSEIOS TRADICIONAIS
APOIA A TRADIÇÃO E DESFRUTA DE UM PASSEIO NA RIA DE AVEIRO
os moliceiros têm vela (264)
cuidado com os crocodilos

sábado 1 de julho
dentro de duas semanas
por esta hora
estaremos na ria
seremos de novo os cisnes
renascidos
aos que abatidos foram
a memória trá-los de volta
e honra-os
aos que mutilados
andam pelos canais de aveiro
a memória trá-los de volta
belos e inteiros
aos homens que continuam
por amor e com amor a tudo fazer
para que os moliceiros não morram
a memória dirá deles que heróis foram

um dia
porque poderá haver um dia
haverá nos olhos de alguns
lágrimas de crocodilo
fica para esses um aviso
não se aproximem da ria
porque podem
aparecer crocodilos a sério

(regata da ria; 2009)
“olhar a xávega” no Monte Branco Caffé
não vou esquecer o dia 3 de junho
não vou esquecer a afavm
não vou esquecer os amigos que lá estiveram e os que por motivos de ausência do continente não puderam estar presentes e mo comunicaram
não me vou esquecer dos que não tendo sido convidados estavam na sala e só saíram depois de terminar
foram 2h30m de emoção e alguma fotografia
esta tem 45 anos, foi produzida por mim do negativo ao papel, na murtosa
abraço os que me abraçaram

o carregar da rede
onésimo teotónio de almeida nas 5as de leitura

era uma vez um GRANDE contador de histórias, com uma memória impressionante e uma cultura incomum. aquilo a que chamo “UM SER ILUMINANTE”.
esteve na figueira da foz no dia 25 de maio de 2017 e foi… como podem ver no registo, uma noite inesquecível.
Onésimo Teotónio Almeida nasceu nos Açores (São Miguel), em 1946, e reside desde 1972 nos Estados Unidos, vivendo entre as margens americana e europeia do rio que banha as suas ilhas – o Atlântico. Doutorou-se em Filosofia na Universidade de Brown (Providence, Rhode Island) e aí é catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, lecionando também no Wayland Collegium for Liberal Learning e no Renaissance and Early Modern Studies Program da mesma universidade.
Divide-se entre a escrita livre (crónica, conto, teatro, prosemas) e o ensaio, que ocupa o lugar central. Entre os seus livros mais recentes contam-se: Livro-me do Desassossego (2006), Aventuras de um Nabogador (2008), Onésimo. Português sem Filtro (2011) e Quando os Bobos Uivam (2013). No ensaio: De Marx a Darwin – A Desconfiança das Ideologias (2009), O Peso do Hífen – Ensaios sobre a Experiência Luso-Americana, Açores, Açorianos, Açorianidade – Um Espaço Cultural (2011), Minima Azorica. O Meu Mundo é Deste Reino (2014), Pessoa, Portugal e o Futuro (2014), Despenteando Parágrafos (2015) e Obsessão da Portugalidade (2017).
É doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro.