os moliceiros têm vela (216)


hoje continuo a ser eu

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o moliceiro “zé rito”

chegar ao mar
dizer bom dia à ria
ver sentir ser

esquecer tudo
viver apenas
o que os olhos

o deslumbramento
é breve

sinto na carne
a faca que me espetaram
e tudo se esvai

soma-se o que oiço
a exploração dos pescadores
o ludíbrio dos moliceiros

a verdade é mais forte
que toda a beleza
e o instante passou

por muito que me doa
hoje continuo a ser eu

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manejam os barcos com a mesma arte com que são manejados

(murtosa; regata do bico; 2009)

crónicas da xávega (165)


hoje estou vivo

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eh! gente do mar. voltei!

estou de regresso
ao mar à ria
a uma certa forma
líquida
de ter casa onde
navegam
amigos muitos

sorrio
porque ainda
ainda estou cá

os dias bebo-os todos
como se os últimos
porque se não repetem

estou vivo, caramba

hoje estou vivo

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estou de volta, ti horácio!

(torreira; companha do marco; 2014)

 

crónicas da xávega (163)


hoje sou memória

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o M. Fátima

pesam em mim gerações
que desconheço

enterrados na memória
comum de um povo
os meus maiores

entre mim e eles o ser eu
a continuação
existo por que existiram
isso lhes devo

quisera soubessem que
os lembro
porque continuam em mim

hoje sou memória

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na areia um barco só pode morrer ou descansar

(praia da torreira; 2013)