hoje sou nuvem

sei que desconhecido
é o amanhã
todos os dias podem ser
tudo
e isso é existir
sei que o fim
é o fim
do desconhecido
por isso hoje
é sempre e eu
hoje sou nuvem

(torreira)
hoje sou nuvem

sei que desconhecido
é o amanhã
todos os dias podem ser
tudo
e isso é existir
sei que o fim
é o fim
do desconhecido
por isso hoje
é sempre e eu
hoje sou nuvem

(torreira)
hoje quero ser vela

a ilusão é estarem juntos
porque deviam
a realidade é a ilusão
ser só isso
contenta-te com o que vês
e sê feliz
se as velas fossem asas
haveria quem as quisesse
roubar
mas são apenas asas
não servem para voar
hoje quero ser vela

(torreira; regata da ria: 2010)
quero ser barco

estátua nome de rua
jardim praça medalha
não as quero
sequer as mereço
nada fica
de quem a tudo se deu
se me disserem de pedra
acreditem
tudo o que de mim digam
é verdade ou foi
estou cansado velho
gasto desconjuntado
no tempo que me falta
quero ser barco

(torreira; coampanha do marco; 2014)
em torno de mim

impossível este silêncio
este momento sem tempo
quase um quadro
onde nada perfeito é
desvendar os olhos
imaginar os gestos
imperfeitos de humanos
o movimento cadenciado
das mãos o trabalho
a carícia ou a sua ausência
o vento sorri
e eu sou o que resta de mim
o que fizeram do que fui
o círculo
lembro-me de o ter escrito
algures
por mais largo que seja
fecha-se sempre
as pontas começam a unir-se

(murtosa; cais do bico)
espero

espero
as palavras sensatas
a resposta
cordata e pensada
reconhecidos
o erro a falta
espero
a justa paga porque
prometida
e como tal devida
a quem por ela fez
mais do que
quem dela sem saber fala
espero
mais que tudo
e como sempre
que os homens sejam
a palavra dada
convertida
no pagamento devido
só isso
sou as águas calmas
da ria
mas também as vagas
quase de mar
quando do norte
o vento forte
em rajadas
espero
mas não muito

(torreira; regata do s. paio; 2012)
o arribar

depois de presos os ganchos nos arganéis da proa – arribar de proa – é preciso correr para fugir ao perigo, não só porque pode haver um movimento lateral do barco, mas também porque o tractor começa de imediato a puxá-lo para terra.
é um momento perigoso para todos.

(torreira; companha do marco; 2013)
da vida

depois de safadas as redes regressam à ré
o meu amigo henrique
pardilhoeiro
na ria é assim
nome próprio dão os pais
alcunha apelido
é coisa da vida

arrumadas à ré, prontas a serem largadas quando da maré
(torreira; porto de abrigo)
só esses

a companha carrega o saco na zorra
vêm da terra as vozes
que não ouvimos
o termos nela raízes
é o silêncio de sermos
sem necessidade de alarido
escrevo nós
e não é o pronome que ouço
são os laços
tão fortes e tão frágeis
que o tempo romperá a seu tempo
não precipites os dias a haver
vítima serás
se carrasco quiseres ser
abraço quem me abraça
escreveu o poeta
eu também
só esses

todos unidos, são a companha
(torreira; companha do marco; 2015)
assim sejam

Foram os escolhidos
Almoçaram os mortos
Mais lembrados
Iludiram-se as ausências
Lavaram-se mãos e olhos
Irmãos pais primos tios
Assim se quiseram
assim sejam

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)
“CORREIO
Chegam cartas, chegam pedaços
do meu país
Chegam vozes. Chega um silêncio que me diz
as revoltas as lágrimas os cansaços.
Chegam palavras que me apertam nos seus braços.
………..
Manuel Alegre

dou-vos a minha palavra
desabitado espaço este
o de haver palavra dada
e ser cumprida
sei que sou português aqui
josé fanha
e o sabê-lo faz de mim mais
do que o que sou
sou os portugueses que de mim
precisam e em mim confiam
sou a minha palavra
a dada aos que o meu respeito
merecem por serem
como muito poucos
portugueses aqui também
para o serem ainda mais além
do que nesta parca geografia
que os sufoca
cresci com homens bons
gente da terra porque a terra neles
não será agora que negarei
a herança
dou-vos a minha palavra

(cais do bico; murtosa)