postais da ria (351)


um puto da ria
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torreira; 2019

 
trago o tempo aos olhos
é ainda o filho nas redes do pai
 
é ainda um puto da ria
que depois da escola safa redes
sem paredes nem janelas
sem professores nem horários
sem exames nem anos a galgar
só marés limos caranguejos
redes para safar
 
é um puto de férias
a safar redes
as redes do pai
e as dos amigos do pai
que dele são também
 
porque todas as redes
são redes dos putos da ria
 
a vida continua
as redes deixaram fugir o pai
 
o puto está preso nas malhas
das redes é um puto da ria
e chama-se filipe como o pai
 

os moliceiros têm vela (395)


cansado
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murtosa; cais do bico; ti zé formigo; 2019

 
fala-me do homem
diz-me que o entendeste
cansa-me esta busca
 
diz-me do homem
tudo o que aprendeste
cansa-me este estar
 
se cada homem é
um barco
ensina-me a navegar
 
é tarde e estou cansado
cansado cansado
cansado
 
memória_03042011

memória_03042011


um dia
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praia de buarcos; 2008

um dia
o meu poema vai levantar voo
das folhas brancas
 
um dia
o meu poema ave vai encontrar-te
na planície da ausência presente
e pousar suavemente
nos teus olhos sequiosos de luz
 
um dia
o meu poema barco
partirá para os mares de bocas
lábios gretados em busca de palavras
 
um dia
o meu poema
deixará de ser
meu
 
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praia de buarcos; 2008