da vida

o jacinto arruma as redes da solheira
na nascente saberá
o rio do mar?
(torreira; 2018)
da vida

o jacinto arruma as redes da solheira
na nascente saberá
o rio do mar?
(torreira; 2018)
sorrio de mim

safar as redes da solheira
sou a memória
de ter sido
habito-me emalhado
na rede dos dias
reinvento-me
em tudo o que faço
sorrio de mim
(torreira; porto de abrigo; 2013)
meditação com a ria em fundo

o ti zé rebeço, homem da ria
quem sou fez-se
quem me fez
não sei se o sabe
vou rente ao mar
enterro na areia os pés
equilíbrio precário
porém seguro e firme
crescemos aprendendo
dolorosamente por vezes
o cuidado no colher
da rosa
é evitar os espinhos
se visíveis forem

ti zé rebeço, a ria como casa
(torreira; regata de bateiras à vela; s. paio ; 2013
mulher

escrevo ria
com m de mulher
não menina
escrevo esta gente
nestes dias
de velas e vento
de sermos
escrevo ria
com m de mulher
e é laguna
escrevo mulher
numa bateira
e a ria sorri de

(torreira; s. paio; 2018)
talvez o amor

talvez o amor
talvez a ria
talvez a vida
talvez
talvez a ternura
talvez a casa
talvez a bateira
talvez
onde antes dois
agora um
talvez o amor
talvez não
de certeza
(torreira; cirandar; 2016)
para o josé antónio vieira (rito)

a bateira “pedro” tripulada por pedro vieira e o pai, josé antónio vieira (rito), vence a regata
nunca é cedo demais
acontece
a fala uma perna morta
um braço sem
incapacidade para
reerguer-se voltar a
ser de novo
se bem que outro
sobre viver
chama-se josé antónio
teve um AVC
o braço direito pende
inerte morto
ao leme da bateira
ganhou a regata
ganhou a si mesmo
brava gente esta
a da nossa ria

a bateira “pedro” tripulada por pedro vieira e o pai, josé antónio vieira (rito), vence a regata
(torreira; regata das bateiras; 2018)
quando

com joão costeira
quando te contarem
cala
mesmo sabendo que
falso
não perturbes o lento
desmoronar da casa
(torreira; o largar da solheira; 2010)
a eternidade

se toda a beleza
cabe num instante
também a morte
olho os barcos
vejo os homens
vida a vibrar
angustiam-me barcos
vazios
prenunciando a morte
habitada ria esta
onde homens e barcos
celebram o instante
a eternidade
é aqui agora
feliz eu

(regata do bico; 2018)
é tarde
enevoado tempo
o das memórias
acordo e recordo
não consigo
esquecer
o que me lembra
ao adormecer
sofro de memórias
de violentados dias
fracas palavras
pobres gestos
vem vazia a rede
vem vazia
vem
é tarde

alar com salvador rilho (chalana)
(torreira; alar da solheira; 2010)
do saber ser

o meu amigo alfredo miranda a entralhar
meticulosas mãos
sábias precisas
limpam redes reparam-nas
novas fazem se
haverá amanhã até um dia
sabem-no há muito
aprende com elas
o ser e o ter sido
há avarias irreparáveis
redes perdidas
meticulosas as mãos
sabem-no

o meu amigo alfredo miranda a entralhar
(torreira; entralhar; 2013)