será?

em boa terra
até a má semente
germina

(regata da ria; 2010)
será?

em boa terra
até a má semente
germina

(regata da ria; 2010)
a memória das imagens

o “A. Rendeiro” do ti zé rebeço a caminho da meta
são o que são
e não querem mais
amam o que amam
e fazem porque
une-nos o abraço o gesto
o sermos simples
como a palavra
que aprendemos sagrada
fiquem para outros os palcos
homens simples
outra arte não têm
senão a de saberem
que entre eles e o barco
só a morte ou falta de dinheiro
se pode interpor
vou com eles em busca
de um futuro possível
mensageiros que são
de uma tradição secular
e ter eu uma máquina
que dispara uma bala para muitos
desconhecida ou ignorada
a memória das imagens

quando três são um
(torreira; regata da ria; 2010)
urgente

ao longe
muito ao longe
a memória
algures um barco
dentro dele um homem
o homem-barco
urgente unir os que
são a memória perto
desse tempo longe
não muito ainda
dar-lhes as mãos
de que carecem
para que um dia
não se escreva
não se possa dizer
ao longe
muito ao longe
havia um barco
dentro dele um homem
um homem-barco
eu

(regata do s. paio; 2016)
gosto de moliceiros

à janela o gato
olha e lambe os bigodes
recorda os tempos duros
da rua do não saber quando
do passar mal
arriscou sofreu
ganhou
não esqueceu
mas cansou
olha só
à janela o gato
quantos à janela?
não gosto de gatos
e gostos não se discutem
gosto de moliceiros
e da garra com que alguns
se fazem do tamanho do barco
porque são maiores
e não conhecem janela onde

(regata da ria; 2010)
palavras poucas

chamam-lhe recachia
apenas para vos dizer
continuo ainda
mas
estou cansado
de ser d. quixote

chamam-lhe recachia
(regata da ria; 2010)
eu

existe o sonho
e a realidade
entre ambos
numa linha
apenas numa linha
quase invisível
quase nada
existo eu
existo eu
existo eu
eu

(torreira; regata da ria; 2010)
do fotógrafo

no tribunal do tempo
o fotógrafo é testemunha
ou está presente
ou nunca existiu

(murtosa; regata do bico; 2010)
sou vela

a bordo do moliceiro do ti abílio
abre a porta e sai
se fechada procura a janela
recusa as paredes
a prisão longe de tudo o que
ser a casa abrigo
é coisa que há muito muitos
ser a casa prisão
é coisa de que há muito muitos
vim de longe
não sei para onde vou
nem quando
mas uma coisa te digo
fechem-me a porta na cara
recusem-me à janela
mas não me tirem a rua
e a varanda sobre os dias
sou vela

a bordo do moliceiro “DOS NETOS”
(torreira; regata do s. paio; 2016)
o meu amigo ti zé rebeço

o ti zé sempre
que idade tem um homem
quando é um homem de todas as idades?
o que pesa aos ombros de um homem
quando o que carrega é a própria vida?
um mastro de moliceiro
foi tronco de árvore
é hoje a raiz de uma gente
onde a bandeira de um povo
ergue a voz de ser ainda
amanhã ti zé
amanhã iremos sempre à ria
seremos todos os que já foram
todos os que hão-de ser
sabendo que aqui
o moliço foi rei
e os homens quando falavam
empenhavam a palavra
ainda os há ti zé
ainda os há
os de palavra aqui
(regata do bico; 2016)
o vídeo da regata
(todos os anos no primeiro fim de semana de agosto realiza-se na murtosa, no cais do bico, a festa do emigrante.
o ponto alto é no domingo, depois de almoço, a regata de moliceiros. sempre a festa maior da ria.
este vídeo, mais um registo para memória futura, foi feito com a câmara colocada na bica da proa do moliceiro “A. Rendeiro” do ti zé rebeço, moliceiro dos velhos tempos e que bebe na ria a vida de cada dia, aos 76 anos idade. é seu camarada, nos últimos anos, manuel antão.
procurei neste registo não fazer corte de tempos que “parecem” mortos, fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.
que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)
meditação com moliceiros

se o passado
te matou o futuro
vive o presente
urgentemente

(torreira; s. paio; 2014)