os moliceiros têm vela (259)


a memória das imagens

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o “A. Rendeiro” do ti zé rebeço a caminho da meta

são o que são
e não querem mais
amam o que amam
e fazem porque

une-nos o abraço o gesto
o sermos simples
como a palavra
que aprendemos sagrada

fiquem para outros os palcos

homens simples
outra arte não têm
senão a de saberem
que entre eles e o barco
só a morte ou falta de dinheiro
se pode interpor

vou com eles em busca
de um futuro possível
mensageiros que são
de uma tradição secular
e ter eu uma máquina
que dispara uma bala para muitos
desconhecida ou ignorada

a memória das imagens

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quando três são um

(torreira; regata da ria; 2010)

 

os moliceiros têm vela (258)


urgente

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ao longe
muito ao longe
a memória

algures um barco
dentro dele um homem
o homem-barco

urgente unir os que
são a memória perto
desse tempo longe
não muito ainda

dar-lhes as mãos
de que carecem
para que um dia
não se escreva
não se possa dizer

ao longe
muito ao longe

havia um barco
dentro dele um homem
um homem-barco

eu

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(regata do s. paio; 2016)

os moliceiros têm vela (257)


gosto de moliceiros

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à janela o gato
olha e lambe os bigodes
recorda os tempos duros
da rua do não saber quando
do passar mal

arriscou sofreu
ganhou
não esqueceu
mas cansou
olha só

à janela o gato
quantos à janela?

não gosto de gatos
e gostos não se discutem

gosto de moliceiros
e da garra com que alguns
se fazem do tamanho do barco
porque são maiores
e não conhecem janela onde

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(regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (251)


sou vela

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a bordo do moliceiro do ti abílio

abre a porta e sai
se fechada procura a janela
recusa as paredes
a prisão longe de tudo o que

ser a casa abrigo
é coisa que há muito muitos

ser a casa prisão
é coisa de que há muito muitos

vim de longe
não sei para onde vou
nem quando

mas uma coisa te digo
fechem-me a porta na cara
recusem-me à janela

mas não me tirem a rua
e a varanda sobre os dias

sou vela

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a bordo do moliceiro “DOS NETOS”

(torreira; regata do s. paio; 2016)

os moliceiros têm vela (250)


o meu amigo ti zé rebeço

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o ti zé sempre

que idade tem um homem
quando é um homem de todas as idades?

o que pesa aos ombros de um homem
quando o que carrega é a própria vida?

um mastro de moliceiro
foi tronco de árvore
é hoje a raiz de uma gente
onde a bandeira de um povo
ergue a voz de ser ainda

amanhã ti zé
amanhã iremos sempre à ria
seremos todos os que já foram
todos os que hão-de ser
sabendo que aqui
o moliço foi rei
e os homens quando falavam
empenhavam a palavra

ainda os há ti zé
ainda os há
os de palavra aqui

(regata do bico; 2016)

o vídeo da regata

(todos os anos no primeiro fim de semana de agosto realiza-se na murtosa, no cais do bico, a festa do emigrante.

o ponto alto é no domingo, depois de almoço, a regata de moliceiros. sempre a festa maior da ria.

este vídeo, mais um registo para memória futura, foi feito com a câmara colocada na bica da proa do moliceiro “A. Rendeiro” do ti zé rebeço, moliceiro dos velhos tempos e que bebe na ria a vida de cada dia, aos 76 anos idade. é seu camarada, nos últimos anos, manuel antão.

procurei neste registo não fazer corte de tempos que “parecem” mortos, fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.

que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)