meditação com moliceiros

se o passado
te matou o futuro
vive o presente
urgentemente

(torreira; s. paio; 2014)
meditação com moliceiros

se o passado
te matou o futuro
vive o presente
urgentemente

(torreira; s. paio; 2014)
“moliceiro”

o ti abílio e o cunhado no canal de aveiro
queria escrever uma palavra
uma imagem
algo que ficasse para além de mim
do efémero hoje
do eterno ontem
do provável amanhã
que falasse de um povo
duma terra dum sentir
do ser
enchi folhas e folhas
de palavras de sonhos
esboços rascunhos
por mais que procurasse
apenas uma me encheu
de tudo e de todos
de tempo e de o não haver
a palavra a imagem o homem
sobrepunham-se numa só linha
em letras breves
“moliceiro”
(regata da ria; 2013)
em louvor do moliceiro

o mestre zé rito e o avelino
fazem os homens
o barco que os faz
e no fazerem-se
são mais que eles
queria dizer-te
que o teu tamanho
como escreveu pessoa
é o tamanho do teu sonho
e tu
oh homem pequeno
de trazer por casa
se não fores barco
não serás sonho
nem terás tamanho
tenham piedade de ti
que eu não

ilusão o serem os homens menores que o barco, porque iguais
(torreira; agosto de 2016)
porque hoje, no brasil, é dia
nacional da fotografia e do fotógrafo

o A. Rendeiro, com o ti zé rebeço ao leme e o manuel antão
para que se lembrem
ou acordem
os que podem querem e mandam
mas parece não saberem
que este pode ser
um dos motores do turismo temático
da ria
onde de novo
produzirá riqueza
assim o queiram
assim o saibam
assim o não ignorem
maltratem ou dele descuidem
para mim é dele o dia

(torreira; regata do s. paio; 2014)
é tempo de moliceiros

abílio fonseca (carteirista)
há gestos que dão vida
há silêncios que matam
há palavras que assassinam
há homens que se revelam
a cada instante
de uns fica a memória de terem sido
de outros a de serem para sempre
para o ti abílio mais que a palavra
o gesto o abraço o estar aqui
mesmo se retirado
em 2016
o ti abílio salvou-me o ano
que outros mataram
para ele 2017 é pequeno
o tempo todo não chega
é tempo de moliceiros
queiram ou não
será sempre

80 anos de fibra
(regata do s. paio; 2016)
notas de um retirante

para que conste
em 1999 o mestre zé rito, que tinha o estaleiro ao lado de casa, construiu, a céu aberto num terreno em frente ao estaleiro, o moliceiro “zé rito”.
em 2016, o mestre zé rito construiu, a céu aberto num terreno ao lado do “museu estaleiro do monte branco”, o moliceiro “um sonho”.
evolução? continuidade? o que mudou para que tudo continuasse na mesma.
aqui fica o convite para visitarem o museu estaleiro e aprenderem vendo.
(construção do moliceiro “um sonho”; 2016)
reparos de um retirante
“Breve História do Concelho da Murtosa”, autor “Marco Pereira”
(algumas notas breves, precedidas de um sublinhado)

em qualquer publicação é tão importante a citação como a omissão.
isto dito, e sem retirar valor, nem importância à obra citada, queria deixar 3 notas breves para os desenvolvimentos temáticos futuros:
moliceiros: ainda há moliceiros na ria. é importante fazer a história das regatas e sua importância na dinamização turística temática e preservação do património, único no mundo. os moliceiros tradicionais e os passeios na ria.
companhas: ainda existem companhas activas na torreira. importante referir as que estão em laboração, as que ao longo do século xx trabalharam e as alterações sofridas nos métodos de trabalho: dos bois aos tractores, dos remos aos motores, por exemplo. parece-me importante que seja referido o seu papel na atracção turística temática.
literatura: não consta o nome do dr. Raul Vaz, entre os escritores listados. penso que, enquanto murtoseiro e pela obra produzida, merece lugar de relevo entre os nomeados.

(foto de 2014)
não esquecerei

fazer a diferença
escrever é sentir
ler é sentir duas vezes e
esquecer
não escrevo
não leio
não sinto
não esquecerei

porque não há um só caminho
(regata do bico; 2012)
jacques hammel, um francês no país dos moliceiros

jacques hamel, un français au pays des moliceiros

(regata do bico; 2016)
(meditação com moliceiros em fundo)

filho da mãe
durante muito tempo me interroguei do porquê de a expressão “filho da mãe”, ter um sentido depreciativo.
para mim, ser filho da mãe era tão natural como estar vivo, não há outra forma de ser.
mas o povo, o que nos põe na boca as expressões que usamos, sabe das palavras mais que as letras, vai-lhes ao sentir. era isso que me faltava: sentir.
hoje entendo perfeitamente o significado da expressão e a sua conotação depreciativa, entendo porque senti e sentir é a melhor forma de compreender.
espero que nunca sintam o sentido desta frase e que a digam de forma natural, como o fazem com outra qualquer:
FILHO DA MÃE!

(torreira; regata da ria; 2011)