aqui portugal, voltámos


acabei de receber dos estados unidos, mais precisamente de um alfarrabista da pensilvânia, os dois primeiros volumes dos “Estudos Etnográficos de D. José de Castro” – “Pescadores” e “Moliceiros”.
 
o interessante no meio desta aventura é que tive de pagar taxas de alfândega e de desalfandegamento de um bem que é nosso e fiz retornar ao nosso país.
 
o valor não é relevante face ao da aquisição, mas o facto é.
 
a factura com o descritivo vinha no exterior, será que não bastava para não haver cobrança?
 
talvez num país que se preocupasse mais com o património até me premiassem por ter conseguido repor património que estava no estrangeiro, mas para isso era preciso outro país com outra cultura.
 
assim vamos por cá
 
eu? eu feliz que nem um passarinho na primavera
000 estudos etnog
 
(imagem da net, site do alfarrabista)

postais da ria (222)


a vida de quem vive da ria não está fácil

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quando todos são um e muito mais que cada um

este ano, contrariamente ao habitual, a corrida de chinchorros foi na quinta-feira, dia 7, e não no sábado juntamente com a regata das bateiras à vela.

para mim, e muitos dos que seguem as regatas do s. paio, esta é a mais emocionante. por isso mesmo, o ser ao sábado garantia a assistência que merece. manifestei-me contra a data escolhida este ano numa publicação a que dei o título “manda quem pode”.

quando cheguei à torreira falei com um pescador membro da organização e disse-lhe o que pensava. a resposta calou-me e foi muito simples:

“- fui eu quem decidiu, porque amanhã, dia 8, é dia de s. paio e há pescadores a quem fazem muito jeito os 50 euros de prémio de participação, que recebem hoje, para festejarem o s. paio.”

a explicação é mais que suficiente, pelo menos para mim.

retiro assim o que disse na publicação referida. é muito mais importante, para os pescadores, poderem brincar o s. paio com alguns trocos a mais na algibeira, do que terem muito mais gente a assistir à corrida de chinchorros.

a vida de quem vive da ria não está fácil.

(corrida de chinchorros; s. paio; 2017)

crónicas da xávega (202)


Portaria nº 172/2017, de 25 de maio

https://dre.pt/web/guest/home/-/dre/107078027/details/maximized

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porque vale a pena bater o pé e ficar firme

(E … finalmente há um governo que entende e publica uma portaria que responde ao proposto.)
Façamos um pouco de história.

2011 – A polícia marítima, a GNR e as autoridades em geral fazem um ataque/vigilância cerrada às capturas das companhas por causa das dimensões do pescado e, em quase todas as praias, há multas, apreensões, destruições de peixe.

(Convém lembrar que a vinda de peixe miúdo nas redes sempre foi uma preocupação para os pescadores era, como me dizia um pescador, “o pão de amanhã”. Assim, e por tradição, se o primeiro lanço da manhã dava muito peixe miúdo, fazia-se a venda e só se fazia novo lanço na maré da tarde. Era tradição e um acto de sabedoria).

Num país em crise onde havia gente com fome e instituições a pedirem apoio alimentar, assistia-se à destruição de peixe fresco de qualidade e que estava, irremediavelmente MORTO. Propuseram os pescadores que fosse entregue a instituições de solidariedade social, propuseram….

2012 – Reúnem-se na Praia de Mira, em Julho, arrais de companhas de todo o país, de Sesimbra a Espinho. Aí dizem de sua justiça e pedem que se aplique a tradição. Dei nota do que lá se passou e de imediato sucedeu, nas publicações https://ahcravo.com/2012/07/17/querem-matar-a-xavega/ https://ahcravo.com/2012/07/30/ponto-de-situacao-sobre-a-xavega/

Em finais de Novembro nasce a Associação Portuguesa de Arte-Xávega (APX) com sede na Praia de Mira e de que é presidente o arrais José Vieira. Pela primeira vez os pescadores da xávega se unem em associação.

2013 -Através da portaria nº 4/2013 é criada a “Comissão de Acompanhamento da Pesca com Arte Xávega”, constituída por técnicos e representantes de autarquias e pescadores, a qual apresenta o seu relatório final em publicação da “Direcção Geral de Recursos Naturais Segurança e Serviços Marítimos” em 4 de junho de 2014.

A primeira recomendação foi:

[a Comissão de Acompanhamento da Pesca com Arte-Xávega] pronunciou-se a favor da adoção de uma medida de exceção que permita a venda do 1º lance, mesmo que constituído por exemplares subdimensionados, partilhando nesta matéria a posição já assumida na Resolução nº 93/2013, da Assembleia da República

Estas muitas outras recomendações foram entregues ao governo de então.

2015 – Responde o governo, em 2015, com a publicação da Portaria nº 17/2015, de 27 de Janeiro, em que se refere somente à autorização de utilização de 4 tractores por cada xávega ….. será preciso dizer mais?

(No verão de 2015, na praia da Torreira, perguntei a um investigador da Universidade de Coimbra que fazia trabalho de campo no âmbito de um estudo sobre a sustentabilidade das pescas, celebrado entre uma entidade da Praia de Mira e a Universidade de Coimbra, se não estava em perigo a continuação da Arte-Xávega – considerando que o arrais Marco Silva pretendia construir, como construiu. um barco novo – a resposta foi: eu não arriscava.

Perguntei ainda porque é que o carapau na nossa costa tinha de ter o tamanho mínimo de 12 cm e no Mediterrâneo 9 cm, qual a justificação científica? Não sabia.

Perguntei se sabia dos desperdícios em peixe subdimensionado, e deitado pela borda fora pelos arrastões. A resposta foi: isso nós sabemos muito bem.

Não perguntei mais nada)

2017 – Portaria nº 15/2015, de 25 de maio!!!!!!!!!!!!

Estão de parabéns os pescadores da Arte-Xávega, está para já afastado o medo da proibição do exercício da arte e, embora a legislação não corresponda totalmente às suas aspirações – haverá alguma que o faça? – responde à primeira das propostas de 2014 da “Comissão de Acompanhamento da Pesca com Arte Xávega”.

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o meu amigo agostinho trabalhito (canhoto)

(torreira; 2010; agostinho trabalhito)

postais da ria (212)


poderia

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ciranda de dois ( ou será de casal?)

poderia escrever
os nomes dos barcos
dos homens das mulheres
dos ganhos das perdas
das artes das artimanhas
da compra da venda
dos contratos doutros tratos

poderia

mas deixo para ti
esse caminho doloroso
que já percorri

também tu
deves aprender
como se vive por aqui

(torreira; cirandar; 2016)

postais da ria (211)


mesmo se longe

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o salvador belo e a ciranda de um

mais que os barcos
mais que a ria
mais que a beleza
que em tudo respira

os homens as mulheres
os que vivem os dias
sem saber de horas
férias feriados

que só sabem
de encomendas
de interdições
de marés
do que por vezes
não sabem por quanto

falo dos meus amigos
e do respeito
que por eles tenho

mesmo se longe

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é duro, é muito duro

(torreira; cirandar)