
não é para todos

(torreira; companha do marco; 2013)

não é para todos

(torreira; companha do marco; 2013)
nem isso
(TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
……………….
Álvaro de Campos)

sequer os sonhos
apenas estas linhas
perdidas no branco
esta sombra
coisa nenhuma
a esvair-se
ao fundo
muito ao fundo
uma voz
nem isso

(torreira)
paguem aos moliceiros

no tempo em que os animais
falavam
os burros andavam de orelhas
murchas
agora que os homens falam
não há quem ature os burros
paguem aos moliceiros

(torreira; regata do s. paio; 2014)
vagueio-me

sento-me em mim
e olho tudo como se
pela última vez
a minha voz
é não a ter
e escrevo porque
não tenho nada
de novo para dizer
vagueio-me

(torreira; porto de abrigo)
a arraisa albina

escolhe o peixe manel
olha o tamanho sarapol
e tu agostinho
lá porque és canhoto
não te enganes
albina
depois de escolher
há que vender
responsabilidade
da arraisa

(torreira; companha do marco; 2010)
o meu amigo raul

como se houvera um caminho
na ria e ele o soubesse
é em direcção ao mar sabemo-lo
parca paga para tão pouco
mesmo se muito
não sustenta família
é no alto mar
que fazem vida os homens daqui
a ria é cada dia mais
para quem espera partir
ou regressou
acabado o tempo
de partir de novo
o caminho raul
é para a barra

(torreira)
tende vergonha na cara

há moliceiros na ria
à espera que lhes paguem
até quando?
não acham que já chega?
como diziam os antigos:
tende vergonha na cara!

(torreira; regata da ria; 2010)

e vai ao mar
enquanto o novo M. Fátima espera que as burocracias se completem para ir ao mar, aqui fica uma recordação de 2012, do barco agora em descanso.
brava gente esta, a dos homens da xávega. saibam respeitá-los e dar-lhes condições de trabalho.

momentos de mar
(torreira; companha do marco; 2012)
a magia da ria

há imagens que nos pregam
ao chão
que nos prendem os olhos
as cores as gentes o céu
o estar ali
deslumbrado com tanto
a ria por vezes é pura magia
como senti no momento em que
não fui capaz de para de disparar
enquanto que pensava
por mais que faça
nunca nada será mais belo
que o estar aqui
assim sintas a ria um dia

o henrique e o padas safam as redes da solheira, o léo, na bateira do pai assiste
(torreira; o safar das redes)